quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Estação das Águas Contexto e Projeção Otacílio Alves Meirelles Lagoa do Sol ________________________________________

 

 

 

 

 


ESTAÇÃO DAS ÁGUAS  CONTEXTO E PROJEÇÃO

DOCUMENTO OFICIAL DE APRESENTAÇÃO E RESGATE MUSICAL-LITERÁRIO

I. CONTEXTUALIZAÇÃO E GÊNESE DO PROJETO

O projeto "Estações das Águas" configura-se como uma iniciativa musical-literária inicialmente concebida pelo grupo Os Tápes. Anos mais tarde músicos componentes do grupo o retomam e dão seguimento ao projeto. Este empreendimento reúne composições de Cláudio Garcia, Silvio Rebello, Airton Madeira, Waldir Garcia, Ronaldo Link, Pedro Ivo Dapper e Otacílio Meirelles, com uma parcela significativa das obras datando da década de 1970.

A inviabilidade inicial para sua concretização resultou na incorporação, ao longo do tempo,  de novas canções ao repertório, sobre o tema, estas, escritas nas décadas de 80, 90 e no início do século XXI. Este material literário musical foi apresentado em várias cidades gaúchas ao longo das décadas de 1980 e 1990.

A riqueza literária oferecida pelo tema – a região costeira sul e suas expressões verbais próprias, envolvendo a identidade cultural da geografia regional e humana desse povo costeiro dentro do território gaúcho – motivou a continuidade da criação. Hoje músicos oriundo d”Os Tpes e (Grupo Estação Das Águas), envolvidos diretamente com a criação do projeto – "Estações Das Águas" - o retomam em sua integridade, com o motivo de resgatar, salvaguardar, apresentar e publicar todo o acervo.

1.1. A Identidade da Linguagem Costeira

A gênese de "Estações das Águas" reside em uma preocupação preexistente d'Os Tápes, reconhecido como um grupo nativista de projeção latino-americana. A obra nasceu principalmente do convívio cotidiano com os pescadores da Lagoa dos Patos, dada a localização costeira da cidade de Tapes e o fato de o galpão de ensaio do grupo se situar junto à vila dos pescadores.

Essa interação diária levou os integrantes a perceber uma outra linguagem gaúcha, distinta da campeira. Uma linguagem própria, com gírias, distorções e vocábulos específicos que versam sobre as águas, a lagoa, o mar, os barcos, os manejos de remos e velas, a pesca e as redes, tão rica quanto aquela que descreve o homem do pampa, dos campos de cima da serra, das missões e da campanha.

 

 

 

II. PROJEÇÃO E RESGATE DO ACERVO

Originalmente concebido para descrever o universo humano costeiro gaúcho, o projeto literário musical, anos depois, assumiu a função de resgate de um vasto acervo de músicas e letras previamente não publicadas sobre o tema.

A totalidade dessas criações integra um corpo expressivo que versa sobre a paisagem geográfica e humana da Lagoa dos Patos. A principal abordagem temática reside na musicalidade costeira com matizes afro-portugueses das danças de salões e terreiros de Umbanda, e na linguagem (característica do povo costeiro, que converge para uma identidade singular e diverge do linguajar campeiro), nos costumes, na cultura local de cotidiano, deslocamento, convívio e trabalho.

2.1. Situação Atual do Material

Ao longo de seu desenvolvimento, embora as canções fossem progressivamente apresentadas em palcos, um volume considerável de material permaneceu inédito ao público em geral por limitação de tempo e espaço, sendo integralmente arquivado.

Atualmente, décadas após sua concepção inicial, empreende-se a organização, seleção, revisão e preparação desse acervo. Embora o formato de sua futura publicação ainda não esteja definido, o objetivo primordial é disseminar essa obra literária musical para o conhecimento público.


 

 

 

 

 

 

 

REPERTÓRIO MUSICAL-LITERÁRIO

A seguir, apresentam-se as composições que integram o projeto "Estação das Águas", com suas respectivas autorias e, quando aplicável, notas do autor.

COMPOSIÇÕES LITERÁRIO-MUSICAIS

 

1. DE AMORES

Autor: Otacílio Meirelles (Letra da Canção)

A onda rolou dançou
Com meu amor eu rodei
A maré subiu baixou
Nos teus braços naveguei

O sol nasceu clareou
Nos teus olhos eu me vi
A bruma abriu fechou
Na tua mão me perdi

Vento veio assobiou
De alegria eu cantei
A chuva caiu molhou
No teu corpo naufraguei

A lua cresceu minguou
No teu peito eu dormi
A brisa gemeu chorou
De amores eu morri


 

2. TEUS OLHOS

Autores: Otacílio e Miguel Luís (Letra da Canção)

Olhos longe horizontes
Barcos velas seguem orças
A bombordo a boreste
Nos teus olhos meu amor

Águas doces cristalinas
As verdes águas salinas
Nos teus olhos de menina

Lua nova lua cheia
Faz ressaca faz marés
Nos teus olhos de mulher

Olhos longe horizontes
Barcos velas sotavento
Vento largo barlavento
Nos teus olhos meu amor

Brisa mansa vento bravo
Praia à dentro praia à fora
Nos teus olhos de senhora

Mar fechado mar aberto
Bate as ondas vão-se as vagas
Nos teus olhos rasos d’água

Olhos longe horizontes
Barcos velas cruzam nuvens
Vão zarpando aportando
Nos teus olhos meu amor

Luz de estrelas paz de auroras
Céu turquesa sol brilhante
Nos teus olhos de amante

Noites claras noites turvas
Calmarias tempestades
Nos teus olhos de saudades

 

3. PÉ PONTA POPA PROA

Autor: Otacílio Meirelles (Letra da Canção)

De ponta a proa atacou / Do barco saltei
Embaixo o casco encalhou / Num banco de areia
No pé a popa dançou / Com o remo calcei                                  

Puxei balancei afrouxei / Tirei com uma cava e meia
Soltei o cabo ancorei / A bordo esperei maré cheia

As minhas redes soltei / Entre mantas de paixão

Malhas finas feiticeiras / Transpassadas de ilusão
De saudades eu malhei / Desenganos sei que não
Tinha pontos de amor / Enredei um coração

 

Linha de fundo atirei / No anzol tinha uma flor
Eu com carinho isquei /  Com ternura ele pegou
No pé com calma tenteei / Na ponta correu levou
Uma sereia fez ondas / Nas croas do desertor

Gaivota um peixe pescou / Levou pra areia
Corvina correu entrou / Lagoa tá cheia
Biguá mergulhou voou / Tainha prateira
A bóia subiu baixou / Peixe bateu na parelha
Rebojo redemoinhou / Arrastando nuvens feias

A proa abrindo ondas / Na popa o vento rasgado
O barco buscando o porto / Entre o tempo  carregado
Trovões rugindo ao longe / Nuvem negra céu fechado
Relâmpago no horizonte / Em frente o mar encrespado

*E assim nas ondas vou solto / Deslizando as águas
Saudades que junto eu levo / Dos portos que passo
No peito amores perdidos / Amores roubados
Nos olhos fisgas de olhares / Malhas de abraços no braço

 

 

 

 

 

 

4. PERGUNTAS

Autores: Cláudio, Airton, Linch e Otacílio (Letra da Canção)

Um dia me perguntei
Porque ser eu pescador
Se sina de pai pra filho
Se de Deus nosso senhor

Procurei na estrela mais bela
Na figueira mais antiga
Nas areias brancas da praia
Nos versos de todas as cantigas

O vento mudou de rumo
O peixe voltou pro mar
O barco virou carcaça
E eu sempre a me perguntar


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5. DANÇA NO TERREIRO

Autores: Cláudio, Airton e Otacílio (Letra da Canção)

As ondas rolam mansas / Na cadência da sua dança
O gingado e o balanço dela / O vento é um apelo
Desprende os seus cabelos / Levanta a saia dela

Sanfona viola pandeiro / E dueto de voz afinada
A dança no terreiro / Os pares se roçando enlaçados
Abraços juras beijos / Meneios de coxas Gingados de ancas                                                                             A dança recua avança balança / Em noite de lua e estrelas

 

Morena me puxa me cerca / Chega mexendo a barriga

No enlace me encosta o peito / Na roda sacode o compasso

Desmancha o candombe em meus braços / Desabrochando em anseios

 

 

Morena maneira fagueira / Remexe embala Requebra as cadeiras /

 No achego no apego A pele o suor / O cheiro o gosto a quentura

Os corpos perdidos / As bocas se achando
O desejo o prazer a loucura / Os pares rondando
Sonhando vagando / Em noite de lua e estrelas

Morena vai e vem encosta / Faz voltas me pega me solta
Eu pego o seu rastro no passo / Rodeia me enleia se enrosca
Sussurra e diz que me gosta / Perdido me encontro
Em seus braços

E a noite vai serena / A lua cai na morena
Estrelas nos olhos dela /

Na sua ciranda tem manhas Devaneios nos seus braços / Enlaço a cintura dela

*Dança de terreiro que existia na Vila dos Pescadores em um terreno baldio à beira da lagoa.

 

 

 

6. TROLHA (PIRACEMA)

Autor: Otacílio (Letra da Canção)

O motor batendo
No bote o traquete
Vai estendendo um arco
O barco
De bom toso
Boca larga
Vem rangendo vem

Puxa a ponta
A trolha vem
Vem tremente vem
Vem cercando vem
Vem de arrasto vem
Vem chegando vem

Miragaia
Linguado badejo  / Pampo caçonete tainha
Bagre guri

Camarão siri / Sardinha savelha corvina
Vem vem vem…

Voga mandim
Traíra viola / Cascote tambica piava
Papa-terra
Grumatã pintado /Peixe-rei dourado joana
Vem vem vem…

Vem chegando vem
Piracema
Vem chegando vem
Piracema
vem chegando vem
Piracema…

* Pesca predatória ainda na década de 80. Trolha; o arrastão na costa gaúcha com  malhas finas, que trazia nas malhas todo tipo de peixe, mesmo os filhotes.

 

 

7. VERSOS DE ITAPUÃ A SÃO JOSÉ

Autor: Cláudio Garcia (Letra da Canção)

Na corrida da tainha
Quando veio água do mar
Meu olho ficou pequeno
Pro peixe que eu vi matar

O siri mascou a rede
Na lagoa do barquinho
Quanto mais busco descanso
Mais trabalho em meu caminho

Por águas mandei recado
De Mostardas a Belém
Por águas me devolveram
As saudades de meu bem

Quando o bagre tá cambando
Os filhotes da lagoa
Pode ser que para o ano
A pesca volte a ser boa

A figueira criou barba
Os netos já são avô
E a cebola não deu preço
Pra quem nela trabalhou

O birú tá aprisionado
Nas grades da rede fina
Manduca caiu faceiro
Nas malhas da Carolina

 

*O Peixe Que Vi Matar: Maneira literal do pescador descrever a retirada do peixe das redes. Matam com uma pancada na cabeça usando um pedaço de madeira. Os versos falam de conhecimentos através de sinais e da cebola, cultivo da região que, nunca da preço para os plantadores locais.

 

 

8. ENTRE O MAR E O PAMPA

Autores: Cláudio Garcia e Waldir Garcia (Letra da Canção)

No ancoradouro

 Nos juncais
Um olhar no amanhecer
Se estendeu brilhando
Nos verdes dos arrozais

Águas e campos

Dumas e montes
Abrindo horizontes
Desvendou as nuvens
Desbravou os ventos

Buscou os remansos / Se entregou praia à fora
Misturou-se às ondas / Se perdeu nas auroras

Divisou as águas / Navegou as correntes
Demarcou as estrelas / Ancorou nas lonjuras

 

Cheiro das algas
Perfume dos pastos
Sentindo a vida
Escolheu encostas
Deitou junto a brisa

Nativo amante
Praia barco areal
Cantando na noite
Despertou a lua
Fez o sol chegar

Buscou os remansos / Se entregou praia afora
Misturou-se às ondas / Se perdeu nas auroras
Divisou as águas / Navegou as correntes
Demarcou as estrelas / Ancorou nas lonjuras


*Esta música é a segunda mais antiga dos Tápes tendo a Lagoa como tema. É de 1973. Descreve a descoberta da lagoa pelo homem sem especificar que homem seja esse, se o branco europeu, se o negro africano, ou se o homem dos povos originários. Foi alguém que chegou, descobrio, se encantou e se assentou às margens da lagoa e a navegou descobrindo novas paragens.

9. SINAIS

Autores: Cláudio e Otacilio (Letra da Canção)

Ir lançar as redes
Cada vez mais lá
Sumir nas águas
Cada vez mais lá
Homens de olhos cansados
De singrar o mar

Ir a colher as redes
Cada vez mais lá
Nascer das águas
Cada vez mais lá
Homens de olhos cansados
Dos confins do mar

Todas as madrugadas
Nas noites turvas
Do ancoradouro
Estudam o tempo
O rolar das ondas
O rumo dos ventos

O aviso das nuvens
Os sinais das estrelas
Segredos e saber
Revelados na hora
De partir pro mar

Pode uma reviravolta
Turvar as águas
Apagar a vista
Desnortear a rota                                                            

Agitar os ventos
Revoltar as ondas

Avariar o barco
Naufragar a volta
Fé e respeito
É sagrado na hora
De partir pro mar


*Houve um tempo em que os pescadores – e isso até bem recente – achavam vergonhoso servirem-se de Salva-vidas nos barcos e botes pesqueiro. Era uma questão de honra usar o conhecimento, as interpretações dos sinais da natureza e a crença em santos protetores para navegar lagoa a fora, muitas vezes dezenas de quilômetros em busca de melhores locais para pescar.

 

 

10. DOR NO POEMA

Autores: Otacílio e Cláudio (Letra da Canção)

Rebelde e cansado
Verso entranhado
Nas correntezas

Escorrem as águas
A viola rola nas manhãs
Os poemas aquecidos no sol
Ferem as noites
A lua as estrelas

Distante a rima que quero
O tom que procuro
A voz pra cantar

O verso navega
Em grande e esplêndida bacia

Que engolfa e jorra venenos                           

 Na margem no centro da vida

Distante o perfume das terras
Dos ventos das águas
O dom de voar

Escarros no encanto
Do canto
No verso machucado
Na dor da voz desafinada
As rimas nas correntes
Navegando

Em ondas mansas revoltas
Entre manchas vão soltas
Chorando a lagoa

*Essa Canção, um fado, descreve os tempo difíceis que,  pelo qual a lagoa passa, sofrendo agressões ambientais...!!!

11. FELICIA

Autores: Otacílio e Cláudio (Letra da Canção)

Feliz Felícia
Forte Felícia
Frágil Felícia
Canta Felícia
Chora Felícia
Sonha Felícia
Vive Felícia

Bóia fria
Pau pra toda obra
Cerca viva
Rosa na janela

Meia-água
Parede e meia
Pés na areia
Mãos tecendo redes

 


Mãe de todos
Ombro pra chorar
Dedo em riste
Olho de rainha

Faz a lida
O peixe charqueado
Lava a roupa
Cuida a vida

*Essa personagem existiu de fato, e foi, tal qual a cação a descreve. Na vila dos pescadores em Tapes, moram muitos de seus descendentes: Filhos, já envelhecidos, netos e bisnetos...!!!

 

 

12. VERÃO

Autores: Cláudio e Otacilio (Letra da Canção)

Sussurros
Na imensidão das águas
Desenhos de algodão

Azul azul
A brisa a pele
Lábios cristais
Verão

Beijos quentes sol
Suores gosto sal
Cálices de mel
Brindes com o mar

Navegar navegar navegar

Murmúrios
Na amplidão dos olhos
Segredos da paixão

Azul azul
A brisa a pele
Lábios cristais
Verão

Beijos quentes sol
Suores gosto sal
Cálices de mel
Brindes com o mar

Navegar navegar navegar

 

 

*Divagação sobre os belos verões Lagoeiros...!!!  

 

 

 

13. LAGOA DO SOL

Autores: Cláudio e Otacilio (Letra da Canção)

Rios Sangas

Caracóis Seixos

 

Nas Margens Ecoa

O Grito Do Jaçanã

O Canto Das Tarrãs

O Lamento Do Urutáu


Orquídeas Figueiras

Cachos Butiazais

Ressacas Remansos

Brisas Brumas


E Entre Espumas E Conchas

Águas Vazantes Enchentes

A Gaivota, Pousa... Voa...!

 

 

Bancos Encostas

Pântanos Pontais


Cercando As Ilhas

O Revoar Das Garças

O Pouso Dos Cisnes

O Rasante Dos Biguás

 

Cristalinas Vertentes

Palmas Coqueirais

Enseadas Areiais

Águas Pés Juncais


E Entre Ventos E Ondas

Praias Croas Correntes

A Gaivota, Pousa...Voa...!

 O Sol Durado, Levanta, Encanta

 

 

*Descrição paisagística da Lagoa dos Patos

 

 

14. ARROIO LINDO

Autor: Otacilío (Letra da Canção)

Uma Flor Branca Na barranca

Cipó Esguio Que Subiu

Se Amarrou E Se Alastrou

Nos Galhos Dos Tarumãs

 

E Se Derrama As Cachos

Brincando Águas Abaixo

Com As Borboletas E As Rãs

 

Entre Grilos E Cigarras

Salta Brilhando À Prata

E Mergulha  Grumatã

 

Arroio Lindo,

Vai Cantando Tuas Mágoas

 

Aos Murmúrios Das Cachoeiras

Passeiam Nas Tuas Águas

Remando De Ponta A Ponta

Nadando De Lado A Lado

 

Linha De Fundo Rodando

O Braço Solto Atirando

Pra Corrida De Um Dourado

 

 

Nas Pontas Das Timbaúvas

Um Surucuá Colorado

Num Lamento Redobrado

Te Avistou E Te Cantou

 

Do Alto De Teus Salseiros

O Rosa De Um Colhereiro

Te Faz Cortejos De Amor

 

Tua Águas Dançando Loucas

Trocando Beijos Na Boca

Com Um Martin Pescador

 

Arroio Lindo

Vai Cantando Tuas Máguas

 

Na Estação Das Enchentes

Soluçando As Corredeiras

Vem Arrastando Madeiras

Alagando Os Teus Banhados

 

Gemendo Em Fúria Brava

Derruba Arranca E Arrasa

Nos Campos De Teus Costados

 

*Sobre O Rio Camaquã que os ribeirinhos chamam de arroio.

 

 

15. BARQUINHO DE LATA

Autores: Pedrinho e Otacílio (Letra da Canção)

O cordão rebentou, ai...!

Estou aqui sozinho

Meu Deus Não sei nadar

Desprendeu meu barquinho

 

Meu barquinho de lata

Que eu ganhei pra brincar

 

Um Repuxo Bateu

Meu barquinho Colheu

E Eu Não Pude Alcançar

 

Vai Subindo As Ondas

Vai Descendo As Vagas

Já Não Pode Voltar

 

Meu Barquinho A Deriva

Vai Nas Correntes Vivas

E Eu Soluço A Chorar

 

Alguém pra me ajudar aí...!

Estou aqui sozinho

De A mão pra Buscar

Desprendeu meu barquinho

 

Meu barquinho de lata

Que eu ganhei pra brincar

 

Vento terra Soprou

Meu Barquinho Levou

Eu não pude alcançar

 

Vai Subindo As Ondas

Vai Descendo As Vagas

Já Não Pode Voltar

 

Meu Barquinho À Deriva

Vai Nas Correntes Vivas

E Eu Soluço A Chorar

 

 

*Pedro Ivo Dapper, percursionista dos Tápes, Já tinha escrito um texto sobre este brinquedo infantil que (centrado no feitio), os pais na época faziam de latas de azeite para os meninos brincarem à beira da lagoa, puxando com um cordão...!!! Escrito, em 1991, para compor à parte infantil do Estações Das Águas, como cantiga de ninar.

 Aqui, inspirado no texto do Pedrinho resolvi  dar uma conotação um pouco infantil dramática, para enfatizar os elementos como Vento-Terra, o Repuxo, as vagas, as Ondas, as correntes e, as relações (qual uma pintura em um quadro), do menininho que se encontra só a beira da lagoa, lutando com estes elementos que, indiferentes ao seu sofrimento, lhe roubam o barquinho.....!!

 

16. PROEIRO

Autor: Otacílio (Letra da Canção)

Linha de fundo e espera

Anzol empate e chumbada

Carretilha corredeira

Caniço de estirada

 

Fateixa espinhel fieira

Boia de cortiça atada

Mão pra fisgada certeira

Braço bom pra tarrafada

 

Homens de popa e carancho

Proeiro destes costados

Entre sol e frio navegam

Céu aberto Céu fechado

 

O suor cai entre as águas

O peixe some nas salgas

E assim vão pescando a lagoa

Com suas mãos pescadoras

 

Cordas parelhas de redes

De pontos e malhas variadas

Malhas singelas solteiras

Feiticeiras entrelaçadas

 

Cascos e bordas inteiras

Leme bom proa elevada

Quilha e popa despacheira

Mastro Adriças Velas içadas

 

 

 

 

Parte II

Homens de popa e carancho

Proeiro destes costados

Entre sol e frio navegam

Céu aberto Céu fechado

 

O suor cai entre as águas

O peixe some nas salgas

E assim vão pescando a lagoa

Com suas mãos pescadoras

 

Na entre safra do peixes

Pescam de estivadores

Atracam nas construções

Remam o chão, são lavradores

 

Nas marés nas invernadas

Nos remansos dos potreiros

Navegam nas gineteadas

São pescadores campeiros

 

Homens de popa e carancho

Proeiros destes costados

Entre sol e frio navegam

Céu aberto Céu fechado

 

O suor cai entre as águas

O peixe some nas salgas

E assim vão pescando a lagoa

Com suas mãos pescadoras

 

 

*Proeiro é o empregado do barco de pesca. Carancho, o comissionado.  Homem de popa: O dono da embarcação .Descrições sobre ferramental e barcos de pesca e, as relações do  pescador com o seu trabalho e a dureza do dia a dia embarcado... As relações econômicas com  o comprador do pescado, dono das modernas câmaras De Gelos para armazenar o pescado (antigas salgas), em muitos lugares ainda hoje chamadas assim...!!!

 

 

17. VELHO DUCA “ÁGUA DOCE”

Autor: Otacílio (Letra da Canção)

Rabanada de dourado

Batendo no Espinhel

Bagre Cambando a os punhados

Subindo com as marés

Bem aqui neste costado

Aí mesmo onde dá pé

 

Mastros velas mestras bujas

Bordejos panejos ventos

Horizontes no Traquete

Larga escolha na mezena

Lagoa linda limpa e livre

Águas claras brisas puras

 

Meu coração de água doce

Balança o Balanço do mar

Ela hoje se aprontou

Com jeito de quem vai navegar

 

Na água cai me encharquei

Na areia saí pra enxugar

O sol fez meu frio aquecer

Alua minha febre baixar

 

Um Barco levou meu amor

No porto fiquei a chorar

O vento escutou minha dor

A brisa acalmou meu penar

 

Velho Duca moço / Fala lembra

Moço Duca velho / Lembra fala

 

 

Parte II / 13

Voga Grumatã piava

Riscando as Calmarias

Mantas de birú bem cedo

Tainhas que reluzia

Abrindo junco logo ali

Por esta luz que me alumia

 

Pescador de pé na popa

Lugares prontos pesqueiros

A lua clareando as velas

Cantigas com o parceiro

Olhos longe riso perto

Lago dono Lago Inteiro

 

Meu coração de água doce

Balança o Balanço do mar

Ela hoje se aprontou

Com jeito de quem vai navegar

 

Na água cai me encharquei

Na areia saí pra enxugar

O sol fez meu frio aquecer

A lua minha febre baixar

 

Um Barco levou meu amor

No porto fiquei a chorar

O vento escutou minha dor

A brisa acalmou meu penar

 

Velho Duca moço / Fala lembra

Moço Duca velho / Lembra fala

 

* Canção inspirada em depoimentos de um velho pescador, nosso conhecido, o Duca... Que, discorria sobre os antigos tempos de pesca: lagoa (linda, limpa, e livre), tempo em que não se precisava de barco para armar redes, entrava-se com a rede até onde dava pé e pronto...!!! O Barco só era usado para levar o pescado para a cidade de Rio Grande para ser exportado, ou levado para cidades para o interior, onde não havia pescado......!!!

 

18. RIO DA VIDA

Autor: Otacílio (Letra da Canção)

Quem caminho sobre as águas /

 É chamado pescador

Pesca a dor e toda a mágoa / 

Só não pesca a própria dor

 

Cada mágoa que levanto      /   

 São penas que faz doer

Ilusões sonhos encantos      /    

 É o que resta pra viver

 

Olhei com os olhos rasos      /  

   No fundo das águas claras

No espelho fez redondilhas    /   

 Mergulhou uma Iara

 

Joguei um ramo de Ipê       /     

  Roxo de amor e carinho

Matreira me desdenhou  /          

 Fiquei na margem sozinho

 

 

 

 

 

 

Parte II

 

Tenho o céu enluarado       /      

Sobre a ponta da Genoa

Peixes de Pratas, Dourados   / 

 Sob o casco da canoa

 

Vai canoa contra as águas    /  

 Vem  as águas contra o vento

Sopra o Vento a meu favor    /   

Acalma meu Sofrimento

 

Distante do bem querer     /      

 Da sopros no coração

Corre nas veias saudade     /  

  Arde nos olhos paixão

 

Partidas que não tem hora     /  

Caminhos a se estender

Regressos que faz demoras  / 

 Distâncias para vencer

 

 Tema Desenvolvido apenas como  propósito musical literário tendo como musa, Yara, a mãe das águas...!!!

 

19. NAS CURVAS DAS ENSEADAS

Autores: Airton e Otacílio (Letra da Canção)

Descendo O Arroio Lindo

À Sombra Dos Ingasais

Passa Correntes Remansos

Entre Os Raios matinais

 

As Garças Brancas Esbeltas

Rubras Esguias Jaçanãs

Faz Barra O Camaquã

A Canoa Cruza O Delta

 

Refrão

Nas Curvas Das Enseadas

Vou E Volto Na Genoa

Vida DE Pescador Pobre

Pobre Mas De Vida Boa

 

Na Lagoa Eu Ganho As Vagas

Abre Uma Clareira O Mundo

Azul No Espelho Profundo

Unindo Os Céus E As Aguas

 

La Fora Eu Solto O Grito

Me Encontro Me Alço Voando

Navegando O Infinito

Eu Ganho Tempo Sonhando

 

 

 

 

 

Refrão:

Nas Curvas Das Enseadas

Vou E Volto Na Genoa

Vida De Pescador Pobre

Pobre Mas De Vida Boa

 

 

Em Busca De Uma Revessa

 Vou Deitar Acampamento

Fogo De Chão Ao Relento

A Lua Surgindo Inteira

 

As Três Marias Na Alçada

Chuvas De Estrelas Cadentes

A Boieira No Levante

O Sol Fazendo Alvoradas

 

Rede De Mão Repassada

Volto Pra casa Contente

 

 

*Descrição sobre a vida de um pescador que vive próximo à foz do rio Camaquã e desce velejando até a lagoa para pescar. Um personagem que, existe de fato, vive longe das apelações das grandes cidades, mesmo das cidades pequenas... Em sua comunidade local nasce. Cresce, vive e trabalha. É pobre, mas é feliz pescando e observando a natureza e levando para caso o sustento de sua família.

 

 

 

 

20. CANTO TRISTE

Autores: Cláudio e Otacílio (Letra da Canção)

Amanhã água  /  Vem mansa     

Fala o vento  /  Do outro lado

Este canto  /  Beira d’água         

No mundo   /  Tá ancorado

 

Tá ancorado  /  No mundo          

Este cantador  /  Arpoado

 

Navegando  Eu vou / 

Corpo solto  Aproado

Dunas brancas, Roncador   /

 Sol nascendo  Do outro lado

 

Parte II

 

Bichos e Peixes  /  Ao sol das manhãs

Somem dos céus 

Dos campos,  Das águas 

Dos  Abrigos Das encostas     

De Rio Grande  /  A Itapuã

 

 

 Pescador Roga Bom Tempo

 Pra Protetora  /  Inhansã

 

 

 

 

 

Navegando eu vou  /

  Corpo solto aproado

Alagadas, Rolador  /

 Arco-íris do outro lado

 

 

Parte III

 

 

Eu canto Triste  /  Pelos juncais

Nas enseadas  /  Nos areais

E voam barbas  /  Nas Figueiras

E douram cachos  /  Nos butiazais

 

E abrem flores as corticeiras

E acenam   os coqueirais

 

Navegando eu vou  /    

Corpo solto aproado

Noites Claras Desertor /

Lua Cheia do outro lado

 

Lua cheia Desertor   /  

Chove estrelas do outro lado.

 

 

*As relações do homem crítico com a natureza costeira da Lagoa dos Patos, com a ameaça às águas,  à fauna local, à paisagem , e ênfase á descrições de lugares da região costeira de Tapes...!”!””!

 

 

21. MAR DE DENTRO

Autor: Otacílio (Letra da Canção)

A costa toda deserta  /  O vento que nunca para

O sal salpicando as mãos  / O sol açoitando a cara

 

Habitantes reunidos  /  Nas casas e nos galpões

A reparar os seus corpos  / A remendar arrastões

 

Tem nativa na janela  /  Tem Herdeira portuguesa

Pelo duro bom de cela  /  Mouro que conta proezas

 

Tem morena da Angola  /  Tem retinta da Guiné

Tem criolo bom de bola  /  Tem nego que diz no pé

 

 

 

Parte II / 03

 

Os povoados esparsos  /  Acomodados nas dunas

Casas de madeiras ralas  /  Carcaças cascos de escunas

 

Raras árvores para sombras  /  Cacimbas rasas pra cede

Junco batido é telha  /  Tábua De Nó é parede...

 

Tem candombe no terreiro  /  Come e bebe no quintal

Festa para o orixá guerreiro  / Terno de reis no portal

 

 

 

 

Preto Velho pai de santo  /  No congá é batuqueiro

A Mãe Preta Canta  Pontos  /  Por negro e branco costeiro

 

 

 

Parte III / 03

 

Sol nascente, além mar  /  Poente, terras além

Doces águas em Belém  /  Em São José,  Lagamar

 

Se estende Os Casarios  /  Capelas, praças a o centro

As Ruas cercando a Barra  /  Deságua o Mar De dentro

 

Tem Da ilha da Madeira  /  Tem das Ilhas de açores

Benzedeiras e Parteiras  /  Artesões Navegadores

 

Carpinteiros e ferreiros  /  Portos cidades praianas

Armazéns e estaleiros  /  Embarcações Lusitanas

 

*Tema descritivo das regiões costeira da Lagoa dos Patos, que canta a região entre a Lagoa dos Patos e o Atlântico Sul (longa península que se estende por 265 quilômetro e se chama – não de maneira oficial - Restinga da Lagoa), com forte influência , da canção  Afro-Portuguesa...””!!! Tocado e Cantado com ritmo que serve-se das cantorias de (ponto), ritmadas dos terreiros de Umbanda, que existem nessa região. Uma tentativa de descrever os Legados culturais  dessas Influências.

 

22. DEFESO

Autor: Otacílio (Letra da Canção)

Leste sopra de tufão /  Vai fechar a temporada

É o fim da estação / Enrola a tralha moçada

 

Que o mar não está pra peixe / Me contou uma Sereia

Quatro luas fora d água / De sol a sol na areia

 

Barco rolado pra terra / Pra obras no "Espraiado"

Ipê Roxo Nas Cavernas / Cedro Rosa nos costados

 

Pau ferro, Grápia, Taúba / Com Garapeira encaixados

Suporte e Banca bem forte / Motor de centro aprumado

 

 

Reservas De Um Santuário / Ambientes Confrontados

Mar De Dentro, Mar De Fora / Cambando De Lado A Lado

 

Verão queimando na areia   /  O trabalho vem dobrado

Redes tecidas às mãos /  Feitas Em Panos  Variados

 

A Deriva, Meia Água, De Fundo Em Pontos Laçados

Malha  fina , malhas grossa  / Grades De Nós Transpassados.

 

Defeso Dá Tempo Ao Tempo  / Vidas, ciclos renovados

Chegando A Temporada / Entram Cardumes pesados

 

 

 

Parte II / 06

 

Vento Batendo na cara / Chuva Tocada guasqueando

Ultima Pesca da safra / Sobe o peixe transbordando

 

Dou a largada para casa / Minha gente está esperando

Se o barco tivesse asas / Voltava agora voando

 

Barco rolado pra terra / Pra obras no Espraiado

Ipê Roxo Nas Cavernas / Cedro Rosa nos costados                           

               

Pau ferro Grápia, taúba / Com Garapeira encaixados

Suporte e Banca bem forte / Motor de centro aprumado

 

Madeira de lei Moldada / Metal em Bronze Forjado

Jamar Novinho em folha / Há muito tempo sonhado

 

Mastro Bom Feito Em Freijó / No Estanhamento Amarrado

Pano Estendido, Retranca / Pro Vento Em Popa Tocado

 

Salvas vidas na espera / O convés bem preparado

Com tabuas de polegadas / E corrimão no tosado

 

Parelha Nova Zarpando / Proeiro bom no costado

Sinal de nova estação / Com cheiro bom de pescado

 

 

*Período em que os pescadores cessam a pesca obedecendo leis que regem em respeito aos ciclos reprodutivos que ocorrem na lagoa. Então aproveitam para rolar o barco pra terra (encima de toras de madeira), para repará-los para a safra seguinte...!!! Aqui há uma descrição de um barco pesqueiro, e pescadores da pesca artesanal...!!!

 

 

 

 

23. MINUANO

Autor: Otacílio (Letra da Canção)

Vento Minuano / Um guerreiro

Não teve pai / E nem mãe

Chega vagueando / Nos pagos

Encorujando as manhãs

 

Nas previsões / Das chegadas

Vem e surpreende / O teatino

Montado ao próprio Destino

Sem Partidor ou parada

 

Voa Livre  / Vento bravo

Não Marca Noite /  Nem dia

Chega tropeando / A invernia

Atravessando os rincões

 

Chega assoviando de longe

A Paisagem  todo acena

Vem tilintando as chilenas

Brincando com os corações

 

E a serenata encantada

Invade as frestas dos galpões

 

 

 

 

 

Parte II / 17

 

Vento Minuano Qual Fantasma

A noite ronda os braseiros

Soprando treme o pago inteiro

Rugindo assombra as madrugadas

 

Gemendo Qual alma Penada

Entre paredes e telhados

Arpejando os alambrados

Canta e desnuda as ramadas

 

Voa Livre / Vento bravo

Não Marca Noite / E nem dia

Chega tropeando / A invernia

Atravessando os rincões

 

Chega assoviando de longe

O Paisagem  toda acena

Vem tilintando as chilenas

Brincando com os corações

 

 E A Serenata Encantada

Invade As Frestas Dos Galpões

 

*Cantiga inspirada em um vento minuano que, no inverno de 96, assoviou, gemeu e rugiu  em Tapes uma semana sem parar. Naquele ano fomos morar num descampado aberto, sem abrigo nenhum. Minha Enteada ainda menininha (A Monnique), não dormia à noite por que pensava que era um fantasma gemendo na volta da casa. Então sentamos à beira da cama e contamos à ela, que ali, estava assoprando  o nosso amado e frio  vento minuano.

 

 

24. CAMAQUÃ (Tomos VIII)

Autores: Airton e Otacilio (Letra da Canção)

A Tarde Aos Poucos Tombou

A Mãe D’água Apareceu

Pra Olhar O Que É Seu

E O Rio Se Iluminou

 

Meia Noite Então Chegou

Um Fogo Brilhante Alado

No Passo Do Assombrado

Boi Tatá Ali Cruzou

 

Mariposas Vaga-Lumes

Corujas E Bacuraus

Serenatas Encantadas

Suindaras, Urutaus

 

Encontros De Quilombolas

Damas Da Noite Se Abrindo

Cantigas, Luar Luzindo

Bombos, Pandeiros , Viola

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Parte II

 

Madrugada Deu Partida

Estrela D’alva Alçada

Solta O Canto A Passarada

Fazendo Festa Pra  Vida

 

Vem O Sol Nascente Pleno

Encantando A Alvorada

Teias De Aranhas Armadas

Salpicadas de Serenos

 

Cabras, Ovelhas Pastando

Cuidam  Cercando  Filhotes

Que Vão Brincando Aos Pinotes

Na Luz Da Manhã Brilhando

 

De Canoa A Pesca Vem

Peixes De Prata, Dourados.

Que O Rio Dá De Bom Grado

Sem Querer Cobrar Ninguém

 

*Cantoria que se envolve com a temática do Rio Camaquã, paisagens, fauna e lendas...!!! O Gado caprino, ovino no alto Camaquã, os pescador, os quilombolas das ribeiras (encostas). Versos que procuram pintar quadros da região...

 

 

25. LANCEIROS NEGROS

Autor: Otacílio (Letra da Canção)

Na Linha Do Horizonte

Pontas De Lanças Dançando

Lanceiros Abrindo O Fronte

Com A Liberdade Sonhando

 

Um Imenso Sol Nascente

Inverno Nas Verdes Pastagens

Na Brancura Das geadas

Negros Livres Na Paisagem

 

Da Memória Não Se Apaga

Coragem Que, A Alma Arrepia.

Sangue E Vidas Em Farrapos

E Os Torturantes Dias

 

Misérias Dores Os Mortos

Por Um Sonho Farroupilha

Trocado Em Negociatas

Por Traição E Covardia

 

Parte II

Até Posso Ver A Cena

O Deprimente Passado

A Tropa Toda Reunida

Lanceiros Negros Lá Apartados

 

A Derradeira batalha

A Lavrada Decisão

De Um Tratado Inominável

Em Nome Da Escravidão

 

Luta Em Marcha De Peito Aberto Vão

A Lança Extensão Do Braço

Vontade De Liberdade

Mais Forte Que O Próprio Aço

 

Escudo; Poncho De Lã

Na Vanguarda Ombro A Ombro

Por Redenção:  A Mortalha

Na batalha De Porongos

 

*Aqui o autor descreve a Batalha dos lanceiros Negros em Porongos (Guerreiros que em sua grande maioria foram oriundo da região costeira gaúcha.

Há vária versões deste acontecimento histórico. Uma delas, a mais forte e convincente pelas evidencias históricas deixadas, é a de traição pelo comando Farroupilha, este liderado pelo comandante em chefe Canabarro. Naquele derradeiro período da guerra, a República  Rio Grandense  se encontrava em profunda crise econômica e o exército  farroupilha, claro,  também. Os lanceiros lutavam usando botas de garrão de potro, ou couro amarrados aos pés e, mesmo de pés descalços. A Arma principal era a lança, e o escudo o bichará, poncho de lã batida enrolado ao braço.


 

 

26. COSTA BRAVA 01

Autores: Silvio Rebello e Otacílio

Costa Brava / Doce Costa /  Costa Afora  , Sol Em Chamas

A Beleza Nas Paisagens /  Apaga a Trajetória Humana 

 

Monta E Laço  Pro  Campeiro / E O Gado No Matadouro

Escravo De Saladeiro  /  Varais Frente O Ancoradouro

 

Olhos Banzos / Rios no rosto   /  Cruz Pesada / Pra levar

Braços Tesos / Canto rouco   /  Correntes / Para arrastar

 

Pés Leviano / Trilho Tosco   /   Lavrar, Plantar / E colher

Marcas No Peito / E No Dorso   /    Eirar, Debulhar / Moer

 

Mas Ninguém / Faz cativo A memória  /  Têm  Histórias

Rodando os braseiros /

 

EO Feitio Dessa Nação nos braços /

Luz Do Conhecimento  Guerreiro?

E A Cultura  Em Alegoria /

Adentrou No Tambor Batuqueiro...!!!

 

Tamborim / Agogô / Xequerê / Cangerê /   Bambulá / 

Atabaque  / Birimbau / Bambaquerê /  Batucar /

Aiê... Aiê...AIê... Orum

 

 Ingomê /  Candonbe / Rocumbo / Catimbau / Caxanbú  /

Adjá  / Xiba  / Alujá / Axexê  /  Ginga / Lundu*/   

Aiê... Aiê...AIê... Orum...

 

Maçanbique /  /Muquá / Quicumbi / Kamba / Bangulê

Urucungo /    Marimbau / Maracatu / Bendenguê / 

Aiê... Aiê...AIê... Orum

Parte superior do formulário

  

 Parte inferior do formulárioParte II

Costa Brava,  Doce Costa /  Costa A Fora, Geadeiro/

Sangue, Suor E Trabalho / Pés Descalços Chão Praieiro

 

Mantas De Charques No Lombo  / Fardos Pro Navio Cargueiro

Charqueada Pesa Nos Ombros / Dia A Dia / Tempo Inteiro

 

Corpo Gasto / Fardo Grosso   / Lavouras / E Redondesas

Rastro fundo / Peso Morto  /  Desde a Terra / O pão na mesa

 

Grilhões para os  tornozelos /  Kanga De Chumbo Nos Ombros

Tranca De Ferro, Senzalas, / Pra Não Fugir  pros  Quilombos

 

 Mas Ninguém Silencia  Ancestrais

 Vieram Em Lendas  em Porões Tumbeiros...

 

Do Contrário Quem É Que Traria / O Som Desse Balanço Costeiro

Rituais Danças E Cantorias  / E Alegria A Girar Nos Terreiros 10:1

 

- Jêguedê / Caxxixi / Jongo / Lê / Zabumba    / Ngungá   /  

  Imgomê / Candomblé / /Batuca / Tumbadora / Bamba /

Aiê... Aiê...AIê... Orum...

 

- Xaque - xaque  / Ijexá/ RIpinique  Caxinguelê (/  )

Afoxé - Quimbôto - / Xambá / Batá / Maculelê

- Aiê* ...!!!  Aiê... Aiê...Aiê... Orum

 

-  Caribó,  Agê  / Bambá -   Birimbáu - Bongô -   - Djambê

Canzá -  Bombo -  Kisange - Hungu -  M’bolumbumba

- Aiê* ...!!!  Aiê... Aiê...Aiê... Orum...

 

 *Descrição irônica sobre a  história da trajetória humana na bela  região costeira que hoje denominamos Costa Doce, cuja além de lugar para morarmos, usamos para  recreações, veraneios e festas, e que, no passado foi o principal palco para o escravagismo nas Charqueadas do Rio Grande Do Sul... Canção Em Ritmo Áfro... Com nomenclaturas em afro descendente que apontam a musicalidade, ritmos, cantorias,  festas, os encontros  religiosos e o instrumental Áfro, que herdamos...


27. CAMAQUÃ TOMOS III

Autores: Airton e Otacílio

Cantando A Vida  Voa

Junto Ao Sol Abre As Manhãs

Serestas De Araquãs

Cravinas cantando à toa

                                   

Cascatas Caindo Em Chuvas

Ribeiras, Ramos Pendentes

Cachos De Amoras, E Uvas

Algazarra Nas Vertentes

 

 

Parte II

 

Perdizes Vão Mariscando

A Granada Das Milhãs

Perfume Dos Guatemãs

Rio De Correnteza Boa

 

 

 

Quanto Canta Seriemas

Dourados Sobem Correntes

Vão Em Busca Das Nascentes

No Ciclo Da Piracema

 

 

 

 

 

Parte III

 

Compassos, Rodas, Balanços

E O Terreiros Pra Dançar,

Lavrar, Semear E O Descanso

Colher, Viver E Cantar....

 

Vozes tristes / De quilombos

Cantigas De Antigas Heras

Sanfonas, Violas / E Bombos

Nas Margens Longas Esperas

 

*As relações do homem ribeiro com o alto Camaquã, lavouras, plantio, colheitas, a natureza, a pesca o folclore, as cantigas, trabalhos e folguedos...!!!


28. VENTO POPA / PROA MAR 04

Autor: Otacílio

Quando saio mar a fora

Me dói ver ela ficando

Eu Levo a vida partindo

E ela a vida esperando

 

Quando chego dos confins

No seus Braços peço auxilio

Eu traga a vida pra ela

E ela a vida pros filhos

 

Assim a finco suando

Deste jeito vamos indo

As vezes nos confundindo

Em outras nos apartando


Os filhos vão nos surgindo

Nosso barraco apertando

De vez em quando  Nós rindo

E Vez Por Outra Penando

 

 

 

 
Parte II / 04



Vamos juntos insistindo  

Velhos Crianças e moços

Num Dia as águas se abrindo

Noutro fechando o mar grosso

 

Pano  De Proa Rasgando

Motor de Centro Batendo

A Velha Tralha Em Remendos

O Velho Bote Encalhando


Entre sonhos de menino

Teço redes a pensar

Embrenhado no destino

De pescar e navegar

 

Navegando amiúde

Vento popa proa mar

Eu peço a deus por saúde

E O Resto A Lagoa dá.

 

*Drama Social de uma família pesqueira pobre que vivia em um barraco na vila dos pescadores em Tápes. Tinha seu próprio barco e equipamento de pasca, mas tudo era precário.


 

29. OLEGÁRIO 11

Autor: Otacílio

Vai Olegário

 

Arquejando pelas sombras

Vem de rota perdidas

Sem rumo remos e velas

 

Vai Olegário

 

Malhas de redes no rosto

Escamas e barbatanas nas mãos

Transas e amarras no andar

Fisgadas de anzóis no coração

 

Vai Olegário...!

 

Vai Olegário

 

Arquejando pelas sombras

Vem de rotas perdidas

Sem rumos remos e velas

 

 

 

 

Vai Olegário

 

Ondas de mortes no corpo

Marés de angústias abordando o leito

Junto a velha companheira

Quem lhe esquenta e Afomenta o peito

 

Vai Olegário...

 

Quem há de um dia pescar

Por onde estes braços pescaram

Quem haverá de Olhar

Paisagens que estes olhos olharam

 

*Velho pescador (O Gringo), que viveu por longos anos morando longe de tudo e de todos, e seus últimos anos morou com uma artista de circo aposentada. Segundo o Filósofo Pedro Ivo Dapper, que viveu por mais de 2 anos na Vila dos pescadores em Tapes, Olegário foi mestre na pescara do linguado: sabia como ninguém segundo a disposição dos ventos, do tempo, como onde e quando aramar uma rede para pescar principalmente o linguado. Há uma outra música que fala de sua reconhecida perícia...!!!

 

 

 

 

Gringo E Levina

 

Autores: Pedro Ivo e Otacilio

 

Mestre Em Lançar As Redes

Sob A Armado Do Tempo

Sabia Escolher O Vento

Pra Cada Espécie De Peixe

 

Canoa Pequena Nas Ondas

Vai Abrindo Os Mananciais

Rema Em Pé Quase Corcunda

Em Capa Preta Entre Os Juncais

 

Oitenta Anos Não Faz Mais

É A Sombra De Si Mesmo

Seu Passado É Um Abismo

Seu Presente É O Velho Caís

 

Sua Morada É Um Jardim

Que Ele Ergueu Sobre Um Deserto

Cuidando Tudo De Perto

Regando, Adubando Em Fim

 

Entre O Bosque Um Barracão...

E Ramadas A Mão Cheia

Ondas Batendo Na Areia

Vento Assoviando No Oitão

 

Chuva Cantando Nas Telhas

Uma Cantiga De Ninar

Cada Nota Uma Centelha

Pra Gringo E Levina Sonhar

 

E Levina, Bem “Sedim”

Em Suas Tarefas Do Dia

Atendendo A Freguesia

Pastéis, Cocadas, Quindins

 

Um Guardanapo Branquinho

Sexto De Vime Nas Mãos

Nos Olhos Brilha O Coração

E Nas Palavras O Carinho

 


 

 

30. BARCO SEM PORTO 12

Autor: Cláudio Garcia

Se foi o barco 

Com as esperanças

Foram se as redes

E o madrugador

 

Qual barco sem Leme

Igual pano sem tralha

Em caminhos de ondas

De ventos de solidão

 

Naufrago Proeiro

De um barco pequeno

Em tantas distancias 

De um porto Ilusão

 

Adeus as Águas 

Turvas lembranças

Olho mareado 

Do navegador 

 

Qual barco sem Leme

Igual pano sem tralha

Em caminhos de ondas

De ventos de solidão

 

Naufrago Proeiro

De um barco pequeno

Em tantas distancias 

De um porto Ilusão

 




31. O "SOLEIRO" 05

Autor: Otacílio

Madrugada o Soleiro

Pega a encilha no paiol

Poe o baio Na estrada

E parte em busca do sol

 

Não tem chuva nem geada

Nem assombro que apareça

Depende desta jornada

Para que o dia amanheça

 

O baio atravessa a noite

Nas veredas campo fora

No infindável trabalho

De buscar o sol na aurora

 

Na garupeira a bagagem

Laço certeiro nos tentos

Pala abanando na aragem

Rabo da Vincha ao vento

 

 

 

 

 

Logo Atrás do horizonte

Se esconde o sol na  alvorada

Sentindo  apontar os raios

As mãos prontas na armada  

 

Rodeia o quatorze braça 

Lance de saber profundo.

Levanta o sol  da alvorada.

E o dia Clareia mundo. 


Retornando para a aldeia 

Trazendo o sol no laço

Entrega pra Sua Bela

E Dela Ganha Um Abraço


O Sol É Uma Pandorga

Nas Mãos O Laço Uma Linha

Com Presilha Bem Seguras

Pra Poder Manter O Dia


Quando Chega A Tardinha

Todos querem descansar

A Noitinha Vai Descendo

E O Sol É Solto para entrar

 

*Crendice Popular Dos Belendregues: um povo que vivia nas matarias do Alto-Camaquã. Acreditavam que se alguém da Aldeia não partice de madrugada para buscar o sol, a alvorada não aconteceria e o dia não iria amanhecer.


32. ALBARDÃO 09

Autor: Otacílio

A noite desce serena  /    

Sob o clarão do luar

Sinto cheira de açucena     /     

Meu bem está pra chegar

 

Estrela d´alva apontada      /         

Brilha qual o teu olhar

Qual mãe D’água Iluminada   / 

 Pela noite a levitar 

 

 

Sou Garimpeiro de sonhos

Sou madrugador Atento

Chuva de estrelas caiu

Na praia do Pensamento


Sou Contador de estrelas

Do Farol do Albardão

Há Noites que as vezes caem

Estrelas para encher as mãos

 

Garimpei fazendo contas    /         

 Estrelas pra este, pra aquela

As mãos cheias contra o peito  /  

 A mais linda; é só para ela

 

Ponteio a viola rasa 

Com sentimento profundo

E canto a moda da casa

O Sofrimento do Mundo 



Parte II / 09

  

Voou uma pena das pontas    /   

  Das asas do Minuano

Que pousou assobiando     /        

 Na noite que já desponta

 

Braseiro brilha ardendo      /       

 Aquecendo a solidão

La fora o vento Gemendo       /    

 Parece uma assombração

 

Sou Garimpeiro de sonhos

Sou madrugador Atento

Chuva de estrelas caiu 

Na praia do Pensamento

 

Sou Contador de estrelas     /    

  Do Farol do Albardão

Há noites que as vezes caem   /

  Estrelas para encher as mãos

 

Garimpei fazendo contas    /         

 Estrelas pra este, pra aquela

As mãos cheias contra o peito  /  

 A mais linda; é só para ela

 

Ponteio a viola rasa 

Com sentimento profundo

E canto a moda da casa

O Sofrimento do Mundo 

 

*Albardão: Faixa de terra entre a lagoa Da Mangueira e o Oceano Atlântico que se estende em direção ao Chuí ...Farol Localizado Nessa faixa de terra. Faroleiro do Albardão.

 


 

33. BAILARINOS DE ÁGUAS E VENTOS 15

Autores: Cláudio, Linch e  Otacílio

Ventania 

Gira Sol

Mato Preto

Graxaim

 

 

Barba Negra Curral Velho

Vitoriano Zé Martim

 

 

Bailarino Conquistador

Rumo a Tuneiras e Desertor

Milionário Prosperador

 

Na Barra Falsa e no Barquinho

Sonho de Ouro e Pereré

Na Flor da Praia Arambaré

 

 

Capivaras

Bujurú

Gavião Negro

Tatuí

 

Calafate Camaquã

Canal Novo e Lami

 

Dançarino imperador

Rumo a Quilombo e Varalzinho

Milionário Prosperador

 

Na Barra falça e no Barquinho

Sonho de Ouro e Pereré

Na Flor da Praia Arambaré  



34. OLHO GATEADO 21

Autores: Cláudio, Linch e  Otacílio

O sol

Lambe

Manso

O silencio

A manhã

O olho 

Gateado

Grelado

A espreita 

Do peso

Subindo

O olho 

Grudado

A mão 

Extraindo

 

 

 

 

 

Parte II / 21

 

O sol

Lambe

Manso 

A água

O bote

O olho

Calado

Cansado

O Lombo

Da onda

Dançando

O Brilho

Dourado

Do Dia

Clareando.


 

 

35. RIO CAMAQUÃ 24

Autor: Otacílio

Rio Camaquã

Rio dos quatro costados

 

Me perco nas tuas curvas

Girando em redemoinhos

Me solto nos teus remansos

Dou costa do outro lado

Teus nativos navegando 

Vam remando tuas canoas

 

Vai Cristalino em tuas águas

Levando o céu no te um leito

Vai refletindo tuas matas

Campos plantações e gados

Vai Encaixado em tuas barrancas

Vai brilhando os teus dourados 

Uh Uh Uh ....

Rio Camaquã

Rio dos Quatro costados

 

Pousa um sábia te canta

Voa um Bem te vi te avista

A garça branca te encanta

A ciriema te grita

Carrega espumas nas águas

Com flores de corticeira


Parte II / 24

 

Vai desenhando em tuas areias

Juntando os teus caramujos

Vai esculpindo tuas ilhas

Vai a lapidar os teus seixos

Vai entalhando os teus caminhos (tuas veredas)

Vai corredeiras a baixo

 

Rio Camaquã

Rio dos quatro costados

 

Um quero quero te alerta

Do alto uma tarrã te guarda

Águas  vazantes te acalma

Águas de enchentes te excita

Em mim derrama tuas queixas

Minha melodia te escuta...


36. A FOTÓGRAFA

Autor: Otacílio

O Meu Amor

Foi Buscar O Sol

As Cores Das manhãs

 

Os Seu Pezinhos Na Areia

As Ondas Beijam Seus Rastros

 O Vento Canta Pra Ela

 

Sussurros, Segredos, Murmúrios, Desejos.

 

A Brisa Nos Teus Cabelos

O Teu Sorriso Em Apelos

O Teu Olhar Em Desvelos

A Tua Trilha Em Novelos...!!! Amor....!!! Amor...!!! ...!!!!

 

 

 

 Parte II

O Meu Amor

Foi Buscar O Sol

As Luzis Das Manhãs

 

O Sol É Um Deus Em Diamante

Num Halo E Cores Vibrantes

Vem Pra Se Encontrar Com Ela

Faz Lume, Sublime, (Princesa), Grandeza,

 

 

No Céu Pintou Um Arco Iris

E Coloriu Tuas Iris

Por Onde Tu Queres Ir

Em Outro Mar  Residir

Se Aventurar, Descobrir....!!!!

Parar, Olhar E Curtir

Sonhar, Fazer (E Sorrir), .

Brincar, Pintar Colorir...!!!

Dizer, Indagar, Ouvir

Dançar, Cantar E Existir

 Eu Vou...!!! .Eu Vou...!!! Eu Vou....!!!! Eu Vou...!!! Amor...!!! Amor...!!! Amor...!!!

 

 

*Esta Letra Tem Como inspiração e, como musa, uma arquiteta paisagista profissional e fotógrafa amadora, amiga minha, que faz um trabalho fotográfico sobre a Lagoa dos Patos há anos...!!! Pedi Permissão a ela para chama-la de meu amor, por questão estética literária...!!!


37. ALTO CAMAQUÃ (Tomos IV)

Autores: Airton e Otacílio

Paredões barrancas matas

Cascatas e Afluentes

Entalhes de vento e águas                         

Doces e Bravas correntes

 

Esculturas nos lajeados

Águas se abrindo na proa

Corre o rio emparedado

Murmura, Borbulha E Troa

 

Pescador Volto Povo

Cansado Da Alegoria

Esperando Um Novo Dia

Louco Pra Cansar De Novo

 

As Plantações Apendoam

Crescem Em Solo Virado

Milhos Louros No Roçados

Cozinhas Cheirando Á Broas

 

Sangas córregos e  fontes

De águas puras cristalinas

Em azul de turmalina

Formam  as  tuas vertentes

 

Aberturas E Clareiras

Praias De Areias E Montes

Corre O Rio Pro Horizonte

Rochedos Várzeas Costeiras ( Ribeiras)

 

A Canoa Deslizando

A Piracema Presente

Sob As Águas Transparentes

Os Peixes Livres Nadando

 

O Passaredo  Cantando

Primavera Aos Rebentos

Pólen Semeados Aos Ventos

As Abelhas Trabalhando

 

*Esta Letra é de uma época em que, o Airton mandava-me material literário e fotográfico sobre o Rio Camaquã, para que eu transformasse em música e versos . Trata-se de uma descrição do alto Camaquã, geográfica paisagística e humana...!!!

 


38. ENTRE AS ÁGUAS 19

Autores: Cláudio e Otacílio

Na enseada do rincão

Quando maio aparecia

Pelas frestas do Galpão

Junho já se pressentia

 

Gente colorindo os campos

Colheitas nos cebolais

Brisa assoviando nas dunas

Ondulando os arrozais

 

Branca areia terra boa

Preto Barro pantanal

Claros olhos corpos pardos

Águas doces / Ondas e sal                                                         

 

Corações temperados

Cheiro de mar gosto de Sol

Verões de amores n’areia

Flertes banhos no pontal

 

Ao Partir dão-se as mãos

Enlaçam-se aos abraços

E o beijo cai no compasso

Balanço do coração

 

 

 

 

Parte II / 19

 

Réstias trançadas nas mãos

Peixes frutos maresias

Barco redes cais e porto

Mar-revolto Calmarias

 

Lindas Nativas, Trigueiras

Casadouras suspirando

Os seus bravos marinheiros

Pro alto mar embarcando

 

De mãos dadas a até o porto

Confundidos pela dor

Eles voam olhar longe

Preso solto sonhador

 

Elas ardentes risos sábios

Peito perto puro amor

E vão murando a os lábios

Versos d´agua mares em flor

 

Ao partir dão-se as mãos

Enlaçam-se aos abraços

E o beijo cai no compasso

Balanço do coração

 

*Descrição da vida cotidiana agro pesqueira da região de Tavares, Bujurú, Rincão e São José do Norte. Os jovens partindo para trabalhar no mar em navios no porto de Rio Grande, despedindo-se das meninas nas estações locais, e cais de pequenos portos costeiro...

 

 

39. GURIZITO

Autores: Cláudio e Zé Claudio (1971)

Gurizito te garanto

Homem grande parece

 

As calças remangadas

Nos joelhos remendos

Pra canga

A boiada trazendo

 

Com passos firmes

Tocando a quarteada

O Arroz No Cacho

Em Fechos nas carreteadas 

 

Teu grito é decidido

Teu olhar é muito duro

Gurizito te asseguro

Não vives qual um Menino

 

O teu andar tem destino

Mas teu pensamento é puro

Gurizito te asseguro

Não vives qual um menino

 

Nunca soube o que é brincar

Tua vida é trabalhar

Trabalhar é tua vida

Nunca soube o que é brincar

 

 

Parte II /20

 

Gurizito te garanto

Homem grande parece

 

Os pés descalço

Quebrando a geada

Queixo tremendo

A mão preparada

 

As mangas regaçadas

O corpo sofrendo

No duro corte

Do Arrozal que vai colhendo

 

Teu grito é decidido

Teu olhar é muito duro

Gurizito te asseguro

Não vives qual um Menino

 

O teu andar tem destino

Mas teu pensamento é puro

Gurizito te asseguro

Não vives qual um menino

 

Nunca soube o que é brincar

Tua vida é trabalhar

Trabalhar é tua vida

Nunca soube o que é brincar

 

*O Cláudio e o Zé Claudio fazem uma incursão literária musical ao trabalho infantil nas lavouras de arroz (cujo eles mesmo foram vítimas) , comum nos tempos antigos, e até mesmo recentes...!!!

 


40. LAMBARI

Autor: (Minha)

Calça curta rosto trigueiro

Isca boa no samburá

Caniço e anzol lagoeiro

Guri por aí vai pescar

 

A linha correu lambari bicou

A boia afundou caniço a vergar

O anzol fisgou guri a puxar

Lambari ficou na água

 

A linha correu lambari bicou

A boia afundou caniço a vergar

O anzol fisgou guri a puxar

Lambari saltou pra terra

 

Boné virado olho matreiro

Pés descalço pisando a areia

Caniço e anzol lagoeiro

Guri por aí vai pescar

 

A linha correu lambari bicou

A boia afundou caniço a vergar

O anzol fisgou guri a puxar

Lambari ficou na sanga

 

A linha correu lambari bicou

A boia afundou caniço a vergar

O anzol fisgou guri a puxar

Lambari saltou pra terra

 

*O Menino costeiro peralta, que já vai pescar sozinho nas sangas e, o primeiro peixe que ainda pequenino puxou das águas...!!!


 

41. BARQUINHO DE LATA       

Autor: (Minha) (Inspirado Em Tema De Pedro Ivo Dapper)

 

O cordão rebentou, ai...!

Estou aqui sozinho

Meu Deus Não sei nadar

Desprendeu meu barquinho

 

Meu barquinho de lata

Que eu ganhei pra brincar

 

Um Repuxo Bateu

Meu barquinho Colheu

E Eu Não Pude Alcançar

 

Vai Subindo As Ondas

Vai Descendo As Vagas

Já Não Pode Voltar

 

Meu Barquinho A Deriva

Vai Nas Correntes Vivas

E Eu Soluço A Chorar

 

 

 

 

 

 

 

 

Alguém pra me ajudar aí...!

Estou aqui sozinho

De A mão pra Buscar

Desprendeu meu barquinho

 

Meu barquinho de lata

Que eu ganhei pra brincar

 

Vento terra Soprou

Meu Barquinho Levou

Eu não pude alcançar

 

Vai Subindo As Ondas

Vai Descendo As Vagas

Já Não Pode Voltar

 

Meu Barquinho À Deriva

Vai Nas Correntes Vivas

E Eu Soluço A Chorar

 

*Escrito, em 1991, para compor à parte infantil do Estações Das Águas.

 Pedro Ivo Dapper, percursionista dos Tápes, Já tinha escrito um texto sobre este brinquedo infantil que (centrado no feitio), os pais na época faziam de latas de azeite para os meninos brincarem à beira da lagoa, puxando com um cordão...!!! Aqui, resolvi , não sei por que razão, dar uma conotação um pouco dramática, acho que, para enfatizar os elementos como Vento-Terra, o Repuxo, as vagas, as Ondas, as correntes e, as relações (qual uma pintura poética), do menininho que se encontra só a beira da lagoa, lutando com estes elementos que, indiferentes ao seu sofrimento, lhe roubam o barquinho.....!!


 

 

 

 

42. O LENHADOR

Autor: Otacilio

A balsa desse pesada / Leva Madeira de lei

 Das matas do Camaquã / Pra alguém ter vida de rei 

 

Cada tora que Derrubada /  Doe em Lúcio o lenhador

No rancho lhe esperando / Três filhos e o seu amor

 

Sua razão inocente / Não Tem Perguntas,  nem respostas

Só sabe que sente, o que sente /  Na Imposição que não gosta

 

Ganhando a vida no braço / Na roça não Teve enxada

No campo não sobrou laço / Na Povo/ não Achou nada

 

AS mãos fortes calejadas / Feita Ao peso do trabalho

Afiou o seu machado /  E na miséria deu um talho

 

 

A balsa segue serena / Nas curvas  do Camaquã

Perfumando suas penas / Cedro, Angico e Tarumã

 

Saudade lhe fez doente / O peito Arde em brasa

Cuidados com sua gente / Precisa rever sua casa

 

 

 

 

 

 

Parte II / 07

 

Não compreende o que se passa / Vai sofrendo o tempo todo

Não confessa suas mágoas / Para não se passar por Tolo

 

Longe de tudo e de todos / A noite dorme ao relento

Cozinha em fogo de chão / Café de chaleira a o vento

 

Não Lhe Sobrou horizontes / Só vê o mato fechado

Abre caminho pras fontes / Clareiras com seu machado

 

O Chefe quer resultado / O patrão pagando pouco

Mas pra quem arca os pecados / Muito vale alguns trocos

 

De sol a sol eito a eito / Não tem dia não tem hora

Nem descanso nem direitos   / Se adoece, mandam embora

 

Então pensa o que  se passa  / Vê o corte, Ouve o tombo

Os Olhos Choram A devassa / Ouvidos  Tremem Com Estrondos|

 

Não Se Põe  Indiferente / Mas Só lhe sobrou esta lavra

Precisa mudar  de oriente / A Visão Lhe Queima Em Brasas...

 

Moço bravo e de respeito / Olhos Brando, Jeito Franco

A Barba descendo ao peito / Cabelos  abaixo dos ombros

 

*Depoimento de um velho pescador que foi lenhador, e trabalhou na década de 60 nas matarias do Camaquã...!!!


43. DESERTOR 10

Autores: Silvio Rebello e Otacílio

Vento Velas Bordejar

Gaivotar Neste Mar

 

Barco Leve Sorrateiro

Proa Forte Rota Firme

Um Pontal De Areias Brancas

Fim De Tarde Desertor

 

Sombra e Nuvem Traiçoeira

Rastejante Derradeira

 

Tripulante Combatente

Extasiado, Louca Intrusa

Que Truncou A Rota

E Destroçou O Sonho

 

Rumando Pro Outro Lado

Vento Em Popa, Vento Ao Largo

 

Bate As Ondas Encrespadas

Orçando A Rota Aproada

O Barco Buscando Abrigo

Ponta Do Birú)  Na Alçada

 *Aconteceu de uma navegada com destino ao rio Camaquã; um temporal nos pegou, acampados no pontal do Desertor, para passar o dia e no dia seguinte seguir adiante. Decidimos mudar a rota para o outro lado; o pontal de Tápes.

 

 

 

44. COREOLANO E OS  TRÊS

 PROEIROS

 

 

A leste do Mar de Dentro

Um Mormaço a sufocar

Um dia fora do tempo

Homens precisam Zarpar

 

É O fruto acumulado 

De um trabalho penado

Pagar credor ao dobrado 

E o patrão a esperar

 

 

A Oeste nuvens estranhas

Na linha do horizonte

Uma ameaça no fronte

Homens precisam zarpar

 

Entre preservar a vida 

E por em risco o trabalho

Entre preservar o trabalho

E por em risco a vida

 

 

Foi então que decidiram

O trabalho  vale mais

E o barco então Zarpou

Deixa o chão firme prá "trás"

 

Vence a linha do horizonte   

Quem ficou já não vê mais

E o Barco então Zarpou 

Em busca do velho cais

 

Surgem  Nuvens e relâmpagos

Mar revolto, e o barco vai /

E o barco então Zarpou 

Pra nunca mais.

 

*Naufragio que vitimou 4 pescadores que, para não perder o produto da pesca, arriscaram – com tempo rim; mormaço em pleno inverno; prenuncio de tempestade - a travessia de 70 quilômetros de água entre a costa leste e a costa oeste da Lagoa dos Patos..

 

45. GRINGO E LEVINA

Autores: Pedro Dapper e Otacilio

Mestre Em Lançar As Redes
Sob As Armadas Do Tempo
Sabia Escolher O Vento
Pra Cada Espécie De Peixe

Canoa Curvando Às Ondas
Inverno Nos Mananciais
Rema Em Pé Quase Corcunda
Capa Preta Entre Os Juncais

Oitent'Anos Não Faz Mais
É Uma Sombra Em Si Mesmo
Seu Passado É Um Abismo
Seu Presente Ronda O Caís

Sua Morada É Um Oasis
Que Ele Ergueu Sobre Um Deserto
Cuidando Tudo De Perto
Regando Plantas, Folhagens

Entre O Bosque O Barracão...
E Ramadas A Mão Cheia
Murmurio De Ondas Na Areia
Vento Assoviando No Oitão


Chuva Cantando Nas Telhas
Uma Canção De Ninar
Cada Nota Uma Centelha:
Gringo E Levina A Sonhar

E  Levina, Por Sua Vez
Vai A Circos No Passado
Rememora Seu Legado
Palcos E Cenas Que Fez

Se Levanta Bem “Sedim”
Em Suas Tarefas Do Dia
Percorrendo A Freguesia
Pastéis, Cocadas, Quindins...!!!

Um Guardanapo Branquinho
Sexto De Vime Nas Mãos
No Olhar O Coração
Nas Palavras O Carinho

E A Alegria De Viver
De Contar, Rememorar
Atriz Mambembe A Sonhar
E O Presente Pra Fazer.

*Casal Da Vila Dos Pescadores, formado por um Pescador e uma  artista de Circo, que já velhos se conheceram, se acertaram e moraram juntos, em um oásis que criaram sobre as areias,  até o fim de suas vidas.

 


PASSO DO MENDONÇA

(Baixo Camaquã) Anos 60

 

 

Da Altura do Cristal

Da boa vista da ponte

Pro estaleiro do Seival

Cresce um mar pro Sol Nascente

 

No inverno é um rio furioso

Dos montes desse  Violento

Desde o Passo Do Mendonça

Se expande com forme o tempo

 

Campos a perder de vista

Que o Rio encobre espraiado

É a estação das enchentes

É o Horizonte Inundado

 

Flui, em um mar Sazonal

Sem divisas, nem amarras

Se estendendo em Manancial

Do Mendonça até a Barra

 

Verões e media estações

Homem  de saber ribeiro

Roças de subsistências

Um casebre hospitaleiro

 

Mulheres Cultivam Hortas  

Crianças Correm Brincando

 Cavalos Bebendo às Margens 

Um Canoeiro Remando 

 

 

 

Parte II

 

Heranças e oligarquias

Campos Senhores Feudais

Peonadas e arrendatários

Gados Sojas e Arrozais 

 

Pobreza que se espalha:

Ribeiras e Afluentes

O Rio correndo na calha

Dá sustento a esta gente

 

Quantas travessias n'águas

Vidas humanas vencidas 

Embates de lança e balas

Fronteiras ganhas, perdidas

 

Foi Divisa Cisplatina

Duas linguagens madrastas

Que vieram fazer pilhagens 

E Arrasar terras e raças

 

Carvoeiros e Olarias

Celeiros ...e Oficinas

 Bolichos e Ferrarias

Cancha Retas E Cantinas

 

Barracos nos corredores

Vilarejos e agregados

Rodeios De Laçadores

Capatazes, Peões Montados

 

Bois De Kamgas Lavradores

Semeadores Chão Plantado

Fazendeiros E Senhores

Confundindo Gente E Gado

 

 

 ( JUNQUEIRO)

PESCADOR PRAIEIRO

 

O Remo Longo Taquaruçú

Cutuca O Leito Toca A Canoa

Abrindo Junco Beirando As Croas

Buscando O Rumo De Turuçú

 

Chuva Guasqueada Capa Voando

Chapéu De Palha Quebrando A Vista

Descendo Cavas Subindo As Cristas

Conhece As Curvas Segue Remando

 

Rema Assobiando, Voa Em Laurel

Buscando Encostas Aponta A Canoa

E Rema Então De Costas Pra Proa

E Com Sapiência Estende O Espinhel

 

Então Rodando A Linha De Fundo

Sabendo Onde Quer Alcançar

E Qual O Peixe Que Quer Pegar

Fisga E Mostra Ele Pro Mundo

 

Remada Longa Requer Remaanso

Uma Revessa Pra Acampar

Uma Fogueira Num Bom Lugar

E Boia Boa Para O Descanso

 

Peixe Na Tábua Do Escalador

Limpa Aciona A Banha Primeiro

Tainha Em Posta Sal E Tempero

Prepara o arroz De Pescador:

 

Banha Tirada Do Próprio Peixe

Panela Boa Pra Não Grudar

Mexe Dourando Pra Lá E Pra Cá

Arroz E Água E Põe Pra  Ferver.

 

 

Vento Tocado Do Turucú

Onda Batendo Empurra A Proa

O Tempo Armado Um Trovão Troa

Busca Os Abrigo Em Bujurú

 

 

 

 

 

Lembra Mistérios E Asombração

O Boi Tátá e A mâe Do Ouro

As Velhas Lendas Bola De Fogo

E Outras Histórias La Do Fundão

 

 

Levanta Sedo Rechega A Lenha

Sopra O braseiro Volta A Fogueira

E Faz  Um Bom Café De Chaleira

Arruma As Tralhas Pra Regressar.

  

 





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