Lagoa do Sol
Estações
das Águas
Contexto e Projeção
O projeto "Estações das
Águas" configura-se como uma iniciativa musical-literária concebida
pelo grupo OsTápes. Este empreendimento reúne composições de Cláudio
Garcia, Silvio Rebello, Airton Madeira, Waldir Garcia, Ronaldo Link e Otacílio
Meirelles, com uma parcela significativa das obras datando da década de 1970. A
inviabilidade inicial – por vários motivos – para sua concretização resultou na
incorporação de novas canções ao repertório sobre o tema, que foi apresentado
em várias cidades gaúchas ao longo das décadas de 1980 e 1990.
A gênese de "Estações das
Águas" inicia-se com empreendimentos de viagens em pesquisa de campo
em busca de entender este universo cultural e, por isso, reside em uma
preocupação preexistente dos Tapes, reconhecido como um grupo nativista de
projeção latino-americana (a obra nasceu principalmente do convívio cotidiano
com pescadores da Lagoa dos Patos, exatamente porque o galpão de ensaio dos Tapes
localizava-se na vila dos pescadores, junto à lagoa).
Originalmente concebido para
descrever o universo costeiro gaúcho, o projeto assumiu, contemporaneamente, a
função de resgate de um vasto acervo de músicas e letras previamente não
publicadas. Apesar de algumas dessas composições serem conhecidas por
colaboradores próximos, elas não foram incluídas em gravações anteriores.
Outras, devido à riqueza e extensão do repertório, não foram apresentadas ao
público por limitações de tempo e espaço. A totalidade dessas criações
literário-musicais integra um corpo expressivo que versa sobre a paisagem
geográfica e humana da Lagoa dos Patos. A principal abordagem temática reside
na linguagem (caracterizada pelo linguajar costeiro gaúcho, que confere uma
identidade singular ao indivíduo local e diverge do linguajar campeiro dos
habitantes do interior do Rio Grande do Sul), nos costumes e na cultura local
de cotidiano, deslocamento, convívio e trabalho.
Ao longo de seu desenvolvimento
de criação, a maioria das canções eram progressivamente apresentadas em palcos,
resultando em um volume considerável de material que, em sua maioria — por
motivo de tempo e espaço —, permaneceu inédito ao público em geral.
Atualmente, décadas após sua
concepção inicial, empreende-se a organização, seleção, revisão e preparação
desse acervo. Embora o formato de sua futura publicação ainda não esteja
definido, o objetivo primordial é disseminar essa obra literário-musical para o
conhecimento público em salas e teatros.
DE AMORES
Otacílio Meirelles
A onda rolou
dançou
Com meu amor eu rodei
A maré subiu baixou
Nos teus braços naveguei
O sol nasceu clareou
Nos teus olhos eu me vi
A bruma abriu fechou
Na tua mão me perdi
Vento veio assobiou
De alegria eu cantei
A chuva caiu molhou
No teu corpo naufraguei
A lua cresceu minguou
No teu peito eu dormi
A brisa gemeu chorou
De amores eu morri
TEUS OLHOS
Olhos longe
horizontes
Barcos velas seguem orças
A bombordo a boreste
Nos teus olhos meu amor
Águas doces cristalinas
As verdes águas salinas
Nos teus olhos de menina
Lua nova lua
cheia
Faz ressaca faz marés
Nos teus olhos de mulher
Olhos longe horizontes
Barcos velas sotavento
Vento largo barlavento
Nos teus olhos meu amor
Brisa mansa
vento bravo
Praia à dentro praia à fora
Nos teus olhos de senhora
Mar fechado mar aberto
Bate as ondas vão-se as vagas
Nos teus olhos rasos d’água
Olhos longe horizontes
Barcos velas cruzam nuvens
Vão zarpando aportando
Nos teus olhos meu amor
Luz de estrelas paz de auroras
Céu turquesa sol brilhante
Nos teus olhos de amante
Noites claras noites turvas
Calmarias tempestades
Nos teus olhos de saudades
Pé Ponta Popa Proa
Otacílio Lopes Meirelles
De ponta a proa atacou / Do barco saltei
Embaixo o casco encalhou / Num banco de areia
No pé a popa dançou / Com o remo calcei Puxei balancei
afrouxei / Tirei com uma cava e meia
Soltei o cabo ancorei / A bordo esperei maré cheia
As minhas redes soltei / Entre mantas de paixão Malhas finas feiticeiras /
Transpassadas de ilusão
De saudades eu malhei / Desenganos sei que não
Tinha pontos de amor / Enredei um coração
Linha de fundo atirei / No anzol tinha uma flor
Eu com carinho isquei / Com ternura ele
pegou
No pé com calma tenteei / Na ponta correu levou
Uma sereia fez ondas / Nas croas do desertor
Gaivota um peixe pescou / Levou pra areia
Corvina correu entrou / Lagoa tá cheia
Biguá mergulhou voou / Tainha prateira
A bóia subiu baixou / Peixe bateu na parelha
Rebojo redemoinhou / Arrastando nuvens feias
A proa abrindo ondas / Na popa o vento rasgado
O barco buscando o porto / Entre o tempo carregado
Trovões rugindo ao longe / Nuvem negra céu fechado
Relâmpago no horizonte / Em frente o mar encrespado
E assim nas ondas vou solto / Deslizando as águas
Saudades que junto eu levo / Dos portos que passo
No peito amores perdidos / Amores roubados
Nos olhos fisgas de olhares / Malhas de abraços no braço
PERGUNTAS
Um dia me
perguntei
Porque ser eu pescador
Se sina de pai pra filho
Se de Deus nosso senhor
Procurei na estrela mais bela
Na figueira mais antiga
Nas areias brancas da praia
Nos versos de todas as cantigas
O vento mudou de rumo
O peixe voltou pro mar
O barco virou carcaça
E eu sempre a me perguntar
DANÇA NO
TERREIRO
As ondas rolam mansas /
Na cadência da sua dança
O gingado e o balanço dela / O vento é um apelo
Desprende os seus cabelos / Levanta a saia dela
Sanfona
viola pandeiro / E dueto de voz afinada
A dança no terreiro / Os pares se roçando enlaçados
Abraços juras beijos / Meneios de coxas Gingados de ancas A
dança recua avança balança / Em noite de lua e estrelas
Morena me puxa me cerca / Chega mexendo a barriga
No enlace me encosta o peito / Na roda sacode o compasso
Desmancha o candombe em meus braços / Desabrochando em anseios
Morena maneira fagueira / Remexe embala Requebra as cadeiras /
No achego no apego A pele o suor
/ O cheiro o gosto a quentura
Os corpos
perdidos / As bocas se achando
O desejo o prazer a loucura / Os pares rondando
Sonhando vagando / Em noite de lua e estrelas
Morena vai e
vem encosta / Faz voltas me pega me solta
Eu pego o seu rastro no passo / Rodeia me enleia se enrosca
Sussurra e diz que me gosta / Perdido me encontro
Em seus braços
E a noite vai serena / A lua cai na morena
Estrelas nos olhos dela /
Na sua
ciranda tem manhas Devaneios nos seus braços / Enlaço a cintura dela
TROLHA
(PIRACEMA)
O motor
batendo
No bote o traquete
Vai estendendo um arco
O barco
De bom toso
Boca larga
Vem rangendo vem
Puxa a ponta
A trolha vem
Vem tremente vem
Vem cercando vem
Vem de arrasto vem
Vem chegando vem
Miragaia
Linguado badejo
Pampo
caçonete tainha
Bagre guri
Camarão siri
Sardinha savelha corvina
Vem vem vem…
Voga mandim
Traíra viola
Cascote tambica piava
Papa-terra
Grumatã pintado
Peixe-rei dourado joana
Vem vem vem…
Vem chegando vem
Piracema
Vem chegando vem
Piracema
vem chegando vem
Piracema…
VERSOS DE ITAPUÃ A SÃO JOSÉ
Na corrida da tainha
Quando veio água do mar
Meu olho ficou pequeno
Pro peixe que eu vi matar
O siri mascou a rede
Na lagoa do barquinho
Quanto mais busco descanso
Mais trabalho em meu caminho
Por águas mandei recado
De Mostardas a Belém
Por águas me devolveram
As saudades de meu bem
Quando o
bagre tá cambando
Os filhotes da lagoa
Pode ser que para o ano
A pesca volte a ser boa
A figueira criou barba
Os netos já são avô
E a cebola não deu preço
Pra quem nela trabalhou
O birú tá aprisionado
Nas grades da rede fina
Manduca caiu faceiro
Nas malhas da Carolina
ENTRE O MAR E O PAMPA
No ancoradouro
Entre os juncais
Um olhar no amanhecer
Se estendeu brilhando
Nos verdes dos arrozais
Águas e campos Dumas e montes
Abrindo horizontes
Desvendou as nuvens
Desbravou os ventos
Buscou os remansos
Se entregou praia à fora
Misturou-se às ondas
Se perdeu nas auroras
Divisou as
águas
Navegou as correntes
Demarcou as estrelas
Ancorou nas lonjuras
Cheiro das
algas
Perfume dos pastos
Sentindo a vida
Escolheu encostas
Deitou junto a brisa
Nativo amante
Praia barco areal
Cantando na noite
Despertou a lua
Fez o sol chegar
Buscou os remansos
Se entregou praia afora
Misturou-se às ondas
Se perdeu nas auroras
Divisou as águas
Navegou as correntes
Demarcou as estrelas
Ancorou nas lonjuras
SINAIS
Ir lançar as redes
Cada vez mais lá
Sumir nas águas
Cada vez mais lá
Homens de olhos cansados
De singrar o mar
Ir a colher as redes
Cada vez mais lá
Nascer das águas
Cada vez mais lá
Homens de olhos cansados
Dos confins do mar
Todas as madrugadas
Nas noites turvas
Do ancoradouro
Estudam o tempo
O rolar das ondas
O rumo dos ventos
O aviso das
nuvens
Os sinais das estrelas
Segredos e saber
Revelados na hora
De partir pro mar
Pode uma
reviravolta
Turvar as águas
Apagar a vista
Desnortear a rota
Agitar os ventos
Revoltar as ondas
Avariar o
barco
Naufragar a volta
Fé e respeito
É sagrado na hora
De partir pro mar
DOR NO POEMA
Rebelde e
cansado
Verso entranhado
Nas correntezas
Escorrem as águas
A viola rola nas manhãs
Os poemas aquecidos no sol
Ferem as noites
A lua as estrelas
Distante a rima que quero
O tom que procuro
A voz pra cantar
O verso navega
Em grande e esplêndida bacia
Que engolfa
e jorra venenos
Na margem no centro da vida
Distante o perfume das terras
Dos ventos das águas
O dom de voar
Escarros no encanto
Do canto
No verso machucado
Na dor da voz desafinada
As rimas nas correntes
Navegando
Em ondas mansas revoltas
Entre manchas vão soltas
Chorando a lagoa
FELICIA
Feliz
Felícia
Forte Felícia
Frágil Felícia
Canta Felícia
Chora Felícia
Sonha Felícia
Vive Felícia
Bóia fria
Pau pra toda obra
Cerca viva
Rosa na janela
Meia-água
Parede e meia
Pés na areia
Mãos tecendo redes
Mãe de todos
Ombro pra chorar
Dedo em riste
Olho de rainha
Faz a lida
O peixe charqueado
Lava a roupa
Cuida a vida
VERÃO
Sussurros
Na imensidão das águas
Desenhos de algodão
Azul azul
A brisa a pele
Lábios cristais
Verão
Beijos
quentes sol
Suores gosto sal
Cálices de mel
Brindes com o mar
Navegar
navegar navegar
Murmúrios
Na amplidão dos olhos
Segredos da paixão
Azul azul
A brisa a pele
Lábios cristais
Verão
Beijos
quentes sol
Suores gosto sal
Cálices de mel
Brindes com o mar
Navegar
navegar navegar
Lagoa Do Sol 28
Rios Sangas
Caracóis Seixos
Nas Margens Ecoa
O Grito Do Jaçanã
O Canto Das Tarrãs
O Lamento Do Urutáu
Orquídias Figueiras
Cachos Butiazais
Recessacas Remenssos
Brisas Brumas
E Entre Espumas E Conchas
Águas Vazantes Enchentes
A Gaivota, Pousa... Voa...!
Bancos
Encostas
Pântanos Pontais
Cercando As Ilhas
O Revoar Das Carças
O Pouso Dos Cisnes
O Rasante Dos Biguás
Cristalinas Vertentes
Palmas Coqueirais
Enseadas Areiais
Águas Pés Juncais
E Entre Ventos E Ondas
Praias Croas Correntes
A Gaivota, Pousa...Voa...!
O Sol Durado, Levanta, Encanta
Guayba
Navegando o Rio Guaíba,
Ilhas, Morros, Casarios
Armazéns E Cais do Porto
Na Paisagem, Grandes Navios
Agressões
Instituídas
Sob Os
Faróis Da Costeira
Impérios Ferem Tua Águas
Mancham Tua Brisa Praieira
Nas Veredas Pra Itapuã
A Luz Da Aurora Fascina
Desponta O Sol Na Manhã
E O Dia Azul Te Alucina
Canta E Decantam
As Tuas Margens,
Encantando As Almas Despreparadas,
Vão Apagando Do Espirito Crítico,
Tuas Águas Interditadas.
Usam Milhões Decorando Tua Orla
Com Monumentos
Pra Distrair Tolos
Enquanto Lucram Bilhões Em Divisas
Vão Te Atolando No Lodo
Constroem Praças, Teatros, Mirantes
Passeios E Quadras De Esportes Ao Gosto...
Tem Passarelas Pra Andar Sobre Às Águas
Enquanto O Rio É Um Esgoto.
Anoiteço..., Velejando..., Amanheço...!
Parte II
Lembro As
Praias Do Guaíba
Os Teus Verões Coloridos
Multidões Povoando Areias
Visitantes Comovidos.
Hoje Tuas Praias Livres,
São Raras Águas Sazonais
E Escondem Tuas Praias Mortas
Qual As Quais Não Houvessem Jamais
Nas Veredas
Pra Eldorado
O Por Do Sol Te Imanta
O Céu Todo Matizado
Em Multicores Te Encanta
Contrapartidas, Custos-Benefícios
Lucros-Malefícios,
Tratados Discretos...!!!
Enquanto
Agridem O Teu Corpo Líquido
Vão Te Burlando Em Concreto...!!!
Doutos E Políticos Te Decretam (Um Lago),
Driblando Leis Em Lobbies E Assédios,
Vão Fomentando O Monstro Imobiliário,
Pra Te Enterrar
Entre Os Prédios...
Mordaças, Olhos Brancos, Ouvidos Moucos,
Caras De Paisagens E Vendilhões
Capachos Servis E Vis Mercenários
Te Inventariando Em Leilões...!!!
Anoiteço..., Velejando..., Amanheço...!!!
Nas Curvas Das
Enseadas
(Camaquã Tomos V)
Descendo O Arroio Lindo
À Sombra Dos Ingasais
Passa Correntes Remansos
Entre Os Raios matinais
As Garças Brancas Esbeltas
Rubras Esguias Jaçanãs
Faz Barra O Camaquã
A Canoa Cruza O Delta
Refrão
Nas
Curvas Das Enseadas
Vou
E Volto Na Genoa
Vida
DE Pescador Pobre
Pobre
Mas De Vida Boa
Na Lagoa Eu Ganho As Vagas
Abre Uma Clareira O Mundo
Azul No Espelho Profundo
Unindo Os Céus E As Aguas
La Fora Eu Solto O Grito
Me Encontro Me Alço Voando
Navegando O Infinito
Eu Ganho Tempo Sonhando
Refrão:
Nas
Curvas Das Enseadas
Vou
E Volto Na Genoa
Vida
De Pescador Pobre
Pobre
Mas De Vida Boa
Em Busca De Uma Revessa
Vou
Deitar Acampamento
Fogo De Chão Ao Relento
A Lua Surgindo Inteira
As Três Marias Na Alçada
Chuvas De Estrelas Cadentes
A Boieira No Levante
O Sol Fazendo Alvoradas
Rede De Mão Repassada
Volto Pra casa Contente
Mar De Dentro 03
A costa toda deserta / O
vento que nunca para
O sal salpicando as mãos / O sol açoitando a cara
Habitantes reunidos
/ Nas casas e nos galpões
A reparar os seus corpos / A remendar arrastões
Tem nativa na janela /
Formosura portuguesa
Índio guapo bom de cela /
Mouro que conta proezas
Tem morena da Angola / Tem
retinta da Guiné
Tem criolo bom de bola / Tem
nego que diz no pé
Parte II / 03
Os povoados esparsos /
Acomodados nas dunas
Casas de madeiras ralas /
Carcaças cascos de escunas
Raras árvores para sombras /
Cacimbas rasas pra cede
Junco batido é telha /
Tábua De Nó é parede...
Tem candombe no terreiro / Come
e bebe no quintal
Festa para o orixá guerreiro / Terno de reis no portal
Preto Velho pai de santo / No
congá é batuqueiro
A Mãe Preta Canta
Pontos / Por negro e branco costeiro
Parte III / 03
Sol nascente, além mar /
Poente, terras além
Doces águas em Belém / Em
São José, Lagamar
Se estende Os Casarios /
Capelas, praças a o centro
As Ruas cercando a Barra /
Deságua o Mar De dentro
Tem Da ilha da Madeira / Tem
das Ilhas de açores
Benzedeiras e Parteiras /
Artesões Navegadores
Carpinteiros e ferreiros /
Portos cidades praianas
Armazéns e estaleiros /
Embarcações Lusitanas
Defeso 06
(Minha)
Leste sopra de tufão / Vai fechar a temporada
É o fim da estação / Enrola a tralha moçada
Que o mar não está pra peixe / Me contou uma Sereia
Quatro luas fora d água / De sol a sol na areia
Barco rolado pra terra / Pra obras no
"Espraiado"
Ipê Roxo Nas Cavernas / Cedro Rosa nos costados
Pau ferro, Grápia, Taúba / Com Garapeira encaixados
Suporte e Banca bem forte / Motor de centro
aprumado
Reservas De Um Santuário / Ambientes Confrontados
Mar De Dentro, Mar De Fora / Cambando De Lado A
Lado
Verão queimando na areia / O
trabalho vem dobrado
Redes tecidas às mãos / Feitas Em Tipos Variados
A Deriva, Meia Água, De Fundo Em Pontos Laçados
Malhas finas , malhas grossas / Grades, Laços
transpassados.
Defeso,
reprodução / Vidas, ciclos renovados
Chegando A Piracema / Entram Cardumes pesados
Parte II / 06
Vento Batendo na cara / Chuva Tocada guasqueando
Ultima viagem da safra / Sobe o peixe transbordando
Dou a largada para casa / Minha gente está
esperando
Se o barco tivesse asas / Voltava agora voando
Barco rolado pra terra / Pra obras no Espraiado
Ipê Roxo Nas Cavernas / Cedro Rosa nos
costados
Pau ferro Grápia, taúba / Com Garapeira encaixados
Suporte e Banca bem forte / Motor de centro
aprumado
Madeira de lei Moldada / Metal em Bronze Forjado
Jamar Novinho em folha / Há muito tempo sonhado
Mastro Bom Feito Em Freijó / No Istanhamento Amarrado
Pano Estendido, Retranca / Pro Vento Em Popa Tocado
Salvas vidas na espera / O convés bem preparado
Com tabuas de polegadas / E corrimão no tosado
Parelha Nova Zarpando / Proeiro bom no costado
Sinal de nova estação / Com cheiro bom de pescado
Minuano 17
(Minha)
Vento Minuano / Um guerreiro
Não teve pai / E nem mãe
Chega vagueando / Nos pagos
Encorujando as manhãs
Nas previsões / Das chegadas
Vem e surpreende / O teatino
Montado ao próprio Destino
Sem Partidor ou parada
Voa Livre /
Vento bravo
Não Marca Noite /
Nem dia
Chega tropeando / A invernia
Atravessando os rincões
Chega assoviando de longe
A Paisagem
todo acena
Vem tilintando as chilenas
Brincando com os corações
E a serenata encantada
Invade as frestas dos galpões
Parte II / 17
Vento Minuano Qual Fantasma
A noite ronda os braseiros
Soprando treme o pago inteiro
Rugindo assombra as madrugadas
Gemendo Qual alma Penada
Entre paredes e telhados
Arpejando os alambrados
Canta e desnuda as ramadas
Voa Livre / Vento bravo
Não Marca Noite / E nem dia
Chega tropeando / A invernia
Atravessando os rincões
Chega assoviando de longe
O Paisagem
toda acena
Vem tilintando as chilenas
Brincando com os corações
E A Serenata
Encantada
Invade As Frestas Dos Galpões
Costa Brava 01
(Do Silvio Rebello E Minha)
Doce Costa /
Brava Costa / Costa Afora , Sol Em Chamas
A Beleza Nas Paisagens / Apaga a Trajetória Humana
Monta E Laço
Pro Campeiro / E O Gado No
Matadouro
Tarefas De Saladeiro /
Varais Frente O Ancoradouro
Olhos Banzos / Rios no rosto /
Cruz Pesada / Pra levar
Braços Tesos / Canto rouco /
Correntes / Para arrastar
Pés Leviano / Trilho Tosco /
Lavrar, Plantar / E colher
Marcas No Peito / E No Dorso /
Eirar, Debulhar / Moer
Mas Ninguém / Faz Cativo A Memória
/ Têm Histórias
Rodando os braseiros /
EO Feitio Dessa Nação nos braços /
Luz Do Conhecimento
Guerreiro?
E A Cultura
Em Alegoria /
Adentrou No Tambor Batuqueiro...!!!
Tamborim / Agogô / Xequerê / Cangerê / Bambulá /
Atabaque /
Birimbau / Bambaquerê / Batucar /
Aiê... Aiê...AIê... Orum
Ingomê /
Candonbe / Rocumbo / Catimbau / Caxanbú
/
Adjá /
Xiba / Alujá / Axexê /
Ginga / Lundu*/
Aiê... Aiê...AIê... Orum...
Maçanbique / /Muquá / Quicumbi / Kamba / Bangulê
Urucungo /
Marimbau / Maracatu / Bendenguê /
Aiê... Aiê...AIê... Orum
Parte II
Doce Costa / Brava Costa,
/ Costa A Fora, Geadeiro/
Sangue, Suor E Trabalho / Pés Descalços Chão
Praieiro
Mantas De Charques No Lombo / Fardos Pro Navio Cargueiro
Charqueada Pesa Nos Ombros / Dia A Dia / Tempo
Inteiro
Corpo Gasto / Fardo Grosso / Lavouras / E Redondesas
Rastro fundo / Peso Morto / Desde
a Terra / O pão na mesa
Grilhões para os
tornozelos / Kanga De Ferro Nos
Ombros
,Ferrolho,Tranca De, Senzalas, / Pra Não Fugir pros
Quilombos
Vieram
Lendas Desde Ancestrais
Da Mãe
África Em Porões Tumbeiros...
Do Contrário Quem É Que Traria / O Som Desse
Balanço Costeiro
Rituais Danças E Cantorias / E Alegria A Girar Nos Terreiros 10:1
Jêguedê / Caxxixi / Jongo / Lê / Zabumba / Ngungá
/
Imgomê /
Candomblé / /Batuca / Tumbadora / Bamba /
Aiê... Aiê...AIê... Orum...
/Xaque - xaque / Ijexá/ RIpinique Caxinguelê (/
)
Afoxé - Quimbôto - / Xambá / Batá / Maculelê
- Aiê* ...!!!
Aiê... Aiê...Aiê... Orum
Caribó, Agê /
Bambá - Birimbáu - Bongô - - Djambê /-
Canzá -
Bombo - Kisange - Hungu - M’bolumbumba
- Aiê* ...!!!
Aiê... Aiê...Aiê... Orum...
Camaquã
Tomos III
Cantando A Vida Voa
Junto Ao Sol Abre As Manhãs
Serestas De Araquãs
Cravinas cantando à toa
Cascatas Caindo Em Chuvas
Ribeiras, Ramos Pendentes
Cachos De Amoras, E Uvas
Algazarra Nas Vertentes
Parte
II
Perdizes Vão Mariscando
A Granada Das Milhãs
Perfume Dos Guatemãs
Rio De Correnteza Boa
Quanto Canta Seriemas
Dourados Sobem Correntes
Vão Em Busca Das Nascentes
No Ciclo Da Piracema
Parte
III
Compassos, Rodas, Balanços
E O Terreiros Pra Dançar,
Lavrar, Semear E O Descanso
Colher, Viver E Cantar....
Vozes tristes / De quilombos
Cantigas De Antigas Heras
Sanfonas, Violas / E Bombos
Nas Margens Longas Esperas
Vento Popa / Proa Mar 04
Quando saio mar a fora
Me dói ver ela ficando
Eu Levo a vida partindo
E ela a vida esperando
Quando chego dos confins
No seus Braços peço auxilio
Eu traga a vida pra ela
E ela a vida pros filhos
Assim a finco suando
Deste jeito vamos indo
As vezes nos confundindo
Em outras nos apartando
Os filhos vão nos surgindo
Nosso barraco apertando
De vez em quando Nós rindo
E Vez Por Outra Penando
Parte II / 04
Vamos juntos insistindo
Velhos Crianças e moços
Num Dia as águas se abrindo
Noutro fechando o mar grosso
Pano De Proa Rasgando
Motor de Centro Batendo
A Velha Tralha Em Remendos
O Velho Bote Encalhando
Entre sonhos de menino
Teço redes a pensar
Embrenhado no destino
De pescar e navegar
Navegando amiúde
Vento popa proa mar
Eu peço a deus por saúde
E O Resto A Lagoa dá.
Rio Da Vida 08
Quem caminho sobre as águas /
É chamado pescador
Pesca a dor e toda a mágoa /
Só não pesca a própria dor
Cada mágoa que levanto /
São penas que faz doer
Ilusões sonhos encantos /
É o que resta pra viver
Olhei com os olhos rasos /
No fundo das águas claras
No espelho fez redondilhas /
Revelou-se uma Iara
Joguei um ramo de Ipê /
Roxo de amor e carinho
Matreira me desdenhou /
Fiquei na margem sozinho
Tenho o céu enluarado /
Sobre a ponta da Genoa
Brilhos de
Peixes Dourados /
Sob o casco da canoa
Vai canoa contra as águas /
Vem as águas contra o vento
Sopra o Vento a meu favor /
Acalma meu Sofrimento
Distante do bem querer /
Da sopros no coração
Corre nas veias saudade /
Arde nos olhos paixão
Partidas que não tem hora /
Caminhos a se estender
Regressos que faz demoras /
Distâncias para vencer
Olegário
11
Vai Olegário
Arquejando pelas sombras
Vem de rota perdidas
Sem rumo remos e velas
Vai Olegário
Malhas de redes no rosto
Escamas e barbatanas nas mãos
Transas e amarras no andar
Fisgadas de anzóis no coração
Vai Olegário...!
Vai Olegário
Arquejando pelas sombras
Vem de rotas perdidas
Sem rumos remos e velas
Vai Olegário
Ondas de mortes no corpo
Marés de angústias abordando o leito
Junto a velha companheira
Quem lhe esquenta e Afomenta o peito
Vai Olegário...
Quem há de um dia pescar
Por onde estes braços pescaram
Quem haverá de Olhar
Paisagens que estes olhos olharam
Barco Sem Porto 12
Se foi o barco
Com as esperanças
Foram se as redes
E o madrugador
Qual barco sem Leme
Igual pano sem tralha
Em caminhos de ondas
De ventos de solidão
Naufrago Proeiro
De um barco pequeno
Em tantas distancias
De um porto Ilusão
Adeus as Águas
Turvas lembranças
Olho mareado
Do navegador
Qual barco sem Leme
Igual pano sem tralha
Em caminhos de ondas
De ventos de solidão
Naufrago Proeiro
De um barco pequeno
Em tantas distancias
De um porto Ilusão
O "Soleiro" 05
Madrugada o Soleiro
Pega a encilha no paiol
Poe o baio Na estrada
E parte em busca do sol
Não tem chuva nem geada
Nem assombro que apareça
Depende desta jornada
Para que o dia amanheça
O baio atravessa a noite
Nas veredas campo fora
No infindável trabalho
De buscar o sol na aurora
Na garupeira a bagagem
Laço certeiro nos tentos
Pala abanando na aragem
Rabo da Vincha ao vento
Logo Atrás do horizonte
Se esconde o sol na alvorada
Sentindo apontar os raios
As mãos prontas na armada
Rodeia o quatorze braça
Lance de saber profundo.
Levanta o sol da alvorada.
E o dia Clareia mundo.
Retornando para a aldeia
Trazendo o sol no laço
Entrega pra Sua Bela
E Dela Ganha Um Abraço
O Sol É Uma Pandorga
Nas Mãos O Laço Uma Linha
Com Presilha Bem Seguras
Pra Poder Manter O Dia
Quando Chega A Tardinha
Todos querem descansar
A Noitinha Vai Descendo
E O Sol É Solto para entrar
Albardão 09
A noite desce serena /
Sob o clarão do luar
Sinto cheira de açucena /
Meu bem está pra chegar
Estrela d´alva apontada /
Brilha qual o teu olhar
Qual mãe D’água Iluminada /
Pela noite a levitar
Sou Garimpeiro de sonhos
Sou madrugador Atento
Chuva de estrelas caiu
Na praia do Pensamento
Sou Contador de estrelas
Do Farol do Albardão
Há Noites que as vezes caem
Estrelas para encher as mãos
Garimpei fazendo contas /
Estrelas pra este, pra aquela
As mãos cheias contra o peito /
A mais linda; é só para ela
Ponteio a viola rasa
Com sentimento profundo
E canto a moda da casa
O Sofrimento do Mundo
Parte II / 09
Voou uma pena das pontas /
Das asas do Minuano
Que pousou assobiando /
Na noite que já desponta
Braseiro brilha ardendo /
Aquecendo a solidão
La fora o vento Gemendo /
Parece uma assombração
Sou Garimpeiro de sonhos
Sou madrugador Atento
Chuva de estrelas caiu
Na praia do Pensamento
Sou Contador de estrelas /
Do Farol do Albardão
Há noites que as vezes caem /
Estrelas para encher as mãos
Garimpei fazendo contas /
Estrelas pra este, pra aquela
As mãos cheias contra o peito /
A mais linda; é só para ela
Ponteio a viola rasa
Com sentimento profundo
E canto a moda da casa
O Sofrimento do Mundo
Bailarinos de
Águas e Ventos
15
Ventania
Gira Sol
Mato Preto
Graxaim
Barba Negra Curral Velho
Vitoriano Zé Martim
Bailarino Conquistador
Rumo a Tuneiras e Desertor
Milionário Prosperador
Na Barra Falsa e no Barquinho
Sonho de Ouro e Pereré
Na Flor da Praia Arambaré
Capivaras
Bujurú
Gavião Negro
Tatuí
Calafate Camaquã
Canal Novo e Lami
Dançarino imperador
Rumo a Quilombo e Varalzinho
Milionário Prosperador
Na Barra falça e no Barquinho
Sonho de Ouro e Pereré
Na Flor da Praia Arambaré
Olho Gateado
21
O sol
Lambe
Manso
O silencio
A manhã
O olho
Gateado
Grelado
A espreita
Do peso
Subindo
O olho
Grudado
A mão
Extraindo
Parte II / 21
O sol
Lambe
Manso
A água
O bote
O olho
Calado
Cansado
O Lombo
Da onda
Dançando
O Brilho
Dourado
Do Dia
Clareando.
Rio Camaquã
24
Rio Camaquã
Rio dos quatro costados
Me perco nas tuas curvas
Girando em redemoinhos
Me solto nos teus remansos
Dou costa do outro lado
Teus nativos navegando
Vam remando tuas canoas
Vai Cristalino em tuas águas
Levando o céu no te um leito
Vai refletindo tuas matas
Campos plantações e gados
Vai Encaixado em tuas barrancas
Vai brilhando os teus dourados
Uh Uh Uh Uh UH Uh Uh Uh Uh ...
Rio Camaquã
Rio dos Quatro costados
Pousa um sábia te canta
Voa um Bem te vi te avista
A garça branca te encanta
A ciriema te grita
Carrega espumas nas águas
Com flores de corticeira
Parte II / 24
Vai desenhando em tuas areias
Juntando os teus caramujos
Vai esculpindo tuas ilhas
Vai a lapidar os teus seixos
Vai entalhando os teus caminhos (tuas veredas)
Vai corredeiras a baixo
Uh Uh Uh Uh Uh Uh Uh Uh Uh ...
Rio Camaquã
Rio dos quatro costados
Um quero quero te alerta
Do alto uma tarrã te guarda
Águas vazantes te acalma
Águas de enchentes te excita
Em mim derrama tuas queixas
Minha melodia te escuta...
Passo do Mendonça
(Baixo Camaquã) Anos 60
Da Altura do Cristal
Da boa vista da ponte
Pro estaleiro do Seival
Cresce um mar pro Sol Nascente
No inverno é um rio furioso
Dos montes desse Violento
Desde o Passo Do Mendonça
Se expande com forme o tempo
Campos a perder de vista
Que o Rio encobre espraiado
É a estação das enchentes
É o Horizonte Inundado
Flui, em um mar Sazonal
Sem divisas, nem amarras
Se estendendo em Manancial
Do Mendonça até a Barra
Verões e media estações
Homem de saber ribeiro
Roças de subsistências
Um casebre hospitaleiro
Mulheres Cultivam Hortas
Crianças Correm Brincando
Cavalos Bebendo às Margens
Um Canoeiro Remando
Parte II
Heranças e oligarquias
Campos Senhores Feudais
Peonadas e arrendatários
Gados Sojas e Arrozais
Pobreza que se espalha:
Ribeiras e Afluentes
O Rio correndo na calha
Dá sustento a esta gente
Quantas travessias n'águas
Vidas humanas vencidas
Embates de lança e balas
Fronteiras ganhas, perdidas
Foi Divisa Cisplatina
Duas linguagens madrastas
Que vieram fazer pilhagens
E Arrasar terras e raças
Carvoeiros e Olarias
Celeiros ...e Oficinas
Bolichos e Ferrarias
Cancha Retas E Cantinas
Barracos nos corredores
Vilarejos e agregados
Rodeios De Laçadores
Capatazes, Peões Montados
Bois De Kamgas Lavradores
Semeadores Chão Plantado
Fazendeiros E Senhores
Confundindo Gente E Gado
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